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Fala que é nós

O ferro-velho ficava na entrada da favela e ao lado da linha do trem. Uma invasão bem-sucedida e promissora. Vinte centavos o quilo do papelão, vinte e cinco o do ferro, dois reais o do alumínio e seis o do cobre. Nenhuma concorrência desleal e tampouco cobrança de impostos. Um paraíso fiscal sobre o qual qualquer economista gostaria de se debruçar e construir gráficos mirabolantes. As estimativas apontavam para caçambas retiradas semanalmente e logo a abertura de uma filial. O proprietário, sempre sorridente, traduzia a imagem perfeita de profissional empreendedor da revista Forbes. Teria sido reportagem de capa se usasse ternos engomados e camisas de Ricardo Almeida. Seus farrapos encardidos porém só causavam sensação entre a população local, fiel depositária de suas moedas e promessas.

Em breve a cotação da sucata sofreria um reajuste e todos se animavam com o prognóstico. Seria possível aos miseráveis ali residentes ampliar talvez a cesta básica e ainda garantir uma Caninha da Roça ao entardecer. Quem tivesse síndrome de Jonas que saísse dali imediatamente. Dizer que tudo estava bem era uma asneira; tudo estava ótimo e não havia porque ser de outra forma. Valas a céu aberto, amontoados de lixo, porcos e alguns galináceos ilustravam a razão daquele lugar que se bastava. Os dias perdurariam resplandecentes, a abóbora seria o complemento do jantar e o Velho Barreiro o aperitivo etílico. A perfeição jamais sofreria qualquer tipo de incômodo ou desbunde.

Até o dia em que descobrissem a verdade sobre o proprietário do ferro-velho; até o dia em que os favelados desmascarassem a mentira que os embalava candidamente em banho-maria naquilo que se podia ter como o melhor dos mundos. Lima Costa era uma fraude. Uma fraude construída à custa da grosseria e generosidade da população de baixa renda. Não era nenhum retirante nordestino, um bóia-frio fugitivo ou tampouco um vitorioso das vicissitudes sociais. Não passava, na verdade, de um professor de Literatura Comparada expulso da faculdade por infidelidade acadêmica e agora com o nome sujo nas notas de rodapé. Sua carreira criminosa percorria desde chantagens epistemológicas à negociação de citações de teóricos obscuros. Extorquiu seus orientandos, formou um gordo pé de meia, mas logo teve toda a quantia receptada pela receita federal através de denúncias da cátedra. Arruinado e prestes a ser preso, fugiu para aquela comunidade carente onde construiu nova vida e carreira. Criou um pseudônimo, fabulou toda uma tragédia e alegoria, e rapidamente conquistou a simpatia popular. Tornou-se um rei da sucata que lia Heidegger e Dante às escondidas enquanto simbolizava para aqueles desafortunados a possibilidade de vencer na vida honestamente.

O vai e vem sufocante, a aglomeração tumultuosa e o pinga-pinga incessante de níqueis rapidamente despertaram o interesse da boca de fumo, que propôs uma parceria. A fachada era perfeita, a localização privilegiada e os lucros elevadíssimos. Lima Costa se comprometeu a avaliar a proposta. Temeu por sua cabeça caso recusasse. O bonde se tornava cruel quando contrariado — além de escrever e falar muito mal. No dia seguinte, chamou o aviãozinho e pediu para marcar uma conversa vis-à-vis com o chefe do tráfico. Só foi compreendido alguns minutos depois, quando usou o termo “pessoalmente”. Eliminava aos poucos os vícios de uma erudição outrora celebrada.

O moleque se foi e não mais voltou. A bala comeu naquela manhã nublada e a conversa foi cancelada. Saldo positivo para a polícia e baixa para a criminalidade. Os moradores exibiram indisfarçada revolta; Lima Costa, um silencioso alívio. Graças à truculenta política de segurança pública, seu monopólio se mantinha firme e forte. Pelo menos por enquanto.

Afinal era o momento ideal para abrir sua filial do outro lado da favela. O comércio estava fechado pela morte dos traficantes, a população local exibia novamente sua falta de criatividade em queimar pneus nas vias públicas, e ele aproveitou para analisar um terreno. Chamou alguns catadores de papelão sem eira nem beira para auxiliá-lo e prometeu umas esmolas em seguida. Tentou, por força do hábito, discutir a lírica trovadoresca, mas logo se lembrou de que estava num subúrbio violento, bêbado e drogado. Procurou se acalmar. Mais cinco toneladas de sucata vendida, e logo estaria em Paris às margens do Sena lendo Baudelaire impunemente. Acompanhado por uma taça de Romanèe-Conti. Exultante, ouviu as considerações favoráveis dos catadores sobre o terreno e decidiu pela invasão. Chutou um corpo que atrapalhava seu caminho e, com o arame farpado nas mãos, cercou a propriedade imaginando o que Marx teria a lhe dizer.

— Absolutamente nada — pronunciou uma voz feminina a três metros de distância sobre um monte de barro vermelho. Segurava uma fumegante piteira entre os dedos, acariciava uma amarelada edição do caderno Mais! E trajava um quase sensual uniforme de operária soviética. Dir-se-ia uma espiã que nas horas vagas debatia qualquer assunto por meio de metáforas.

Os olhos de Lima Costa se encantaram diante de tamanho fulgor. Que mulher peculiar, pensou. Não carregava lata d’água na cabeça, não exalava comida caseira, tinha as axilas bem cuidadas e certamente não se chamava Maria.

— Sou Marilena — disse, rompendo seus devaneios e caminhando em sua direção. — O que faz em minha propriedade? Não me recordo de ter solicitado uma cerca. De todo modo, é muita gentileza da sua parte.

Aquela mulher definitivamente não pertencia àquele lugar. Que linguajar apurado, que sofisticação nos gestos, que delicadeza no andar!

— Marilena? Sua propriedade? — fez Lima Costa incrédulo.

— Sim, minha propriedade. Você está bem?

— Estou, estou — atrapalhou-se. — É que não esperava encontrá-la aqui… quer dizer, não aqui aqui, mas aqui, entende?

— Não, não entendo — respondeu serena. — Acho melhor levá-lo ao posto médico. Você parece estar tendo um ataque epilético.

— Não! — gritou Lima Costa, causando espanto inclusive entre os catadores já embriagados. — São apenas alguns tremores que logo passam. Além do mais, os hospitais estão em greve, o que só pioraria meu estado. Preciso ir, boa sorte na sua invasão.

Saiu às pressas, esqueceu dois metros de arame farpado, e deixou a impressão de já ter sido visto em algum lugar. Não no noticiário policial, nas tragédias chuvosas, ou nas distribuições de sopões. Mas em algum lugar muito familiar. Um lugar com corredores estreitos, disputas internas e alguma pitada de alienação social.

Lima Costa chegou em seu barraco aterrorizado. Por pouco não fora descoberto. Por pouco não fora desmascarado. Por pouco não fora denunciado. Do Oiapoque ao Chuí, Marilena tinha que desembarcar logo ali? Fugiria. Era a atitude mais sensata a se tomar. Não sem antes desvendar os motivos subjacentes à presença de figura tão nobre naquele local. Afinal, o que a chefia do departamento de Ciência da Literatura planejava num terreno baldio?

— Construir um centro de estudos — respondeu Marilena repentinamente ao pé do seu ouvido causando-lhe calafrios. Penetrara por uma greta esquecida nos fundos do barraco e agora confirmava suas suspeitas. Estava ali o primeiro e único amor da sua vida universitária: seu professor da graduação. Uma paixão muito além dos platonismos imbecis de filmes tecnicolor. Uma paixão muito além de suspiros virginais. Mas, sim, uma paixão com direito a apalpadelas nas coxas e piscadelas safadas durante as aulas de formalismo russo. Lima Costa desconstruíra as certezas de Marilena e lhe antecipara décadas atrás isso a que hoje chamam de sexo pós-moderno. Por razões porém jamais esclarecidas, o professor desapareceu e sua vida foi destituída de qualquer sentido. Desolada, Marilena filiou-se a um grupo de apoio a alunas desiludidas, até que um dia conquistou o respeito da academia. Através de incentivos governamentais, desenvolvia atualmente um projeto de doutorado junto àquela comunidade.

— É de pressupostos historiográfico-literários que os favelados precisam! — ela arrematava diante de uma crédula e ensimesmada banca examinadora, que em seguida encaminhava a proposta para assinatura do ministro da cultura.

O reencontro com Lima Costa, entretanto, mudara as prioridades de Marilena.

— Estou condenado pelo passado — ele lamentou, enquanto a abraçava e abandonava qualquer rigor crítico que pudesse ter sobre tais palavras.

Não importava. Marilena estava disposta a reviver sensações intensas. Fugiriam juntos com o auxílio financeiro destinado ao projeto comunitário e viveriam de versos alexandrinos nos Champs-Elysées. Era uma ótima idéia. Extasiado, Lima Costa deu uma piscadela safada para Marilena e apalpou sua não tão jovem coxa. No casebre ao lado, uma mulher era espancada pelo marido viciado. Ao longe, um funk proibido soava como uma sinfonia de amor em tempos bárbaros.

Favelados certamente não precisavam de pressupostos historiográfico-literários. A humanidade afinal tinha mais o que fazer e, além do quê, sempre haveria Paris para gente como Lima Costa e Marilena.

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Cledisquélson foi o primeiro morador daquela comunidade carente a passar no vestibular. Curso de psicologia, cinco anos. Tempo demais!, disseram alguns. Você é doido!, disseram outros. Não importava, seus planos estavam na ponta do lápis: comprar um terreno baldio nas redondezas e ali erguer um consultório para atendimento comunitário. A despeito da vala de esgoto que ao lado passasse.

Para comemorar, um churrasco com pagode ao vivo foi armado pelos vizinhos orgulhosos. A conquista fora unicamente individual, mas, pelo bem de todos, Cledisquélson decidiu entrar no clima coletivo. Mais tarde, quando lesse Wilhelm Reich, compreenderia a dinâmica social e daria boas risadas daquilo. O pandeiro, o rebolado de mulatas e pequenos copos de cerveja já sacolejavam. Faltava só a carne para requebrar sobre a brasa, mas provavelmente ela ainda não fora convidada. Questão de tempo. Logo surgiriam algumas capas de contra-filé e picanha de procedência questionável. Sal grosso por cima e molho à campanha, é claro.

Estivéssemos no século XIX, Aluisio Azevedo teria dito que se sentia naquela fermentação sangüínea, naquela aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas, nada mais do que o saboroso prazer animal de existir, a triunfante satisfação de respirar sobre a lama preta que ali era feita de terra. Pós-moderno e graduando de uma universidade federal, Cledisquélson optou por Eros, pela busca do prazer a qualquer preço e algo tido como cultura do narcisismo. O trivial enfeitado de erudito. Ainda sem carteirinha do conselho regional de psicologia, levantou quatro paredes no fundo do quintal e, sobre elas, jogou um punhado de telhas. Pensou em batizar o recinto de Puxadinho psicanalítico, mas temeu que ficasse estereotipado demais. Abraçou seus pais, os sete irmãos e aguardou pelos pacientes. Considerou sadia a sua família, apesar da obsessão do irmão de onze anos pelos seios de sua mãe, e da irmã de catorze pela colher de pedreiro de seu pai.

Enfim alguém na porta bateu. Uma mulher. Quarenta e nove anos. Branca. Esposa do pastor de uma das igrejas evangélicas ali existentes. Nervosa, fora escondida. Dos vizinhos e de Deus, que agora certamente se divertia em alguma sessão de descarrego. Aceitou a água que lhe foi oferecida e se sentou. Começou a falar. Apesar de todos os aspectos informais e incomuns daquela situação, Cledisquélson limitou o tempo a 50 minutos. Prezava pela seriedade profissional. Além de que, precisaria arranjar lenços de papel que ficassem à disposição das lamúrias existenciais. Com espaço insuficiente para o cabimento daquela narrativa, ele decretou:

— Seu problema não é com Deus, dona Jandira, mas com seu superego. Vá para casa e descanse. Continuamos amanhã de manhã.

Falou e disse. Diante de um tão seguro e elaborado discurso, não lhe restou outra escapatória senão obedecê-lo. Decididamente, era tudo o que dona Jandira precisava ouvir. Secou as lágrimas num pano encardido e se foi. Ainda escondida. Na próxima sessão, isso também seria trabalhado.

Três quartos de hora depois, batia em sua porta Adryanna. Aos berros, desabou sobre a cadeira e começou. Na noite anterior, flagrara seu namorado se esfregando em Vivyanne no baile funk. Com o orgulho ferido, pensava em engravidar como forma de vingança. Pronunciou alguns palavrões até ser interrompida.

— Acalme-se, este seu nervosismo não passa de uma clássica inveja do pênis. Se estiver livre amanhã à tarde, volte aqui.

Como não derramara uma gota de lágrima, economia de lenços de papel. Foi, portanto, conduzida até a porta, sentindo-se aliviada com o diagnóstico. Faminto, Cledisquélson pediria à sua mãe que lhe preparasse uma dobradinha. Sua empreitada estava sendo um sucesso. Não era difícil, no fim das contas, eliminar a angústia da população de baixa renda. Maria Rita Kehl e Luiz Alberto Py morreriam de inveja.

— Mãe! — gritou. — Faz pra mim um…

Teria completado o pedido se subitamente o dono da boca de fumo não tivesse entrado pela janela.

— Já é! Já é! — titubeou, prendendo o revólver no cós da bermuda.

A dobradinha teria que ficar para depois. Faltava-lhe coragem para mandá-lo embora impunemente. Sobrava-lhe ética para não recusá-lo deliberadamente. Ofereceu a cadeira como assento, mas Ratão repudiou. Ofegante, fugia de uns PM’s interessados numa palestra amigável. Não estava disposto a tomar mais um prejú naquela semana. A janela vinha portanto a calhar: livrava-o do perigo iminente e acenava para a discussão de suas inquietações ontológicas. Cledisquélson escutou.

Havia o boato de que Tatu, dono da boca de fumo inimiga, invadiria sua área com o apoio da polícia. Não podia ser conversa fiada. A molecada do campinho confirmava com acenos de cabeça. Se a profecia se confirmasse, Ratão estaria arruinado. Tatu teria ao seu dispor um espaço cinco vezes maior para o tráfico, e Ratão o local de desova mais próximo dali. Perguntou o que deveria fazer.

— Nada — respondeu Cledisquélson secamente. — Volte na próxima semana para analisarmos mais profundamente este seu medo da castração.

Ratão poderia ter argumentado que na próxima semana estaria com a boca cheia de formiga, mas acatou categoricamente a decisão. Estava afinal lidando com um sangue bom. Deixou cinco gramas de pó sobre a mesa e saiu. Cortesia.

Na sala de aula, Cledisquélson aprendeu o que era transferência. Ficou deslumbrado. Descobriu que seu poder ia muito além de ser um mero ouvinte. Tinha uma tremenda responsabilidade sobre seus ombros. Leu ainda que Freud usara cocaína em alguns pacientes, tendo resultados compensadores. Lembrou-se da trouxinha que Ratão lhe deixara e correu para casa. Dona Jandira estaria à sua espera.

Entrou sofregamente ignorando a sugestão de sua mãe para experimentar o angu que jazia sobre o fogão. Chegou à alcova e ninguém estava lá. Teria dona Jandira desmarcado a consulta?

— Sim — respondia sua mãe. — Disse que tá tudo bem, que não precisa mais.
— O quê?! — surpreendeu-se Cledisquélson. — Mas ela está com problemas no superego!
— Exatamente — rebateu a mãe.

Não entendeu a resposta materna. Limitou-se a passar em revista os momentos da consulta na tentativa de descobrir algum erro.

— Ah — foi interrompido. — Adryanna e Ratão também disseram o mesmo.
— Não pode ser — desesperou-se. — Ambos estão envolvidos em complicações seríssimas…
— Pois é, meu filho! — repreendeu.

Cledisquélson chorou. Copiosamente. Fabulosamente. Cometera um grande erro: entregara de bandeja o nome da enfermidade para o doente. Agora que eles já sabiam, viveriam encerrados naquele vocabulário até o fim de suas vidas. Dona Jandira não mais se apoquentava – saberia conviver com seu superego atormentado. Adryanna, enquanto lavava suas roupas, aproveitaria para incrementar o rap do pênis invejado que em breve estaria nas paradas musicais. Ratão, ainda com uma boca saudável e companheiro de seu medo da castração, investiria na conquista de Vivyanne e mais algumas minas da vizinhança. A vida seguiria seu rumo sem grandes transtornos ou tentativas de suicídio. Em outras palavras, sem as frescuras da nossa desequilibrada elite brasileira.

Talvez a análise não passasse de uma tentativa de curar a angústia superficial para se apresentar a angústia das profundezas. Noves fora, se Freud não estava enganado, a população de baixa renda é que não estava. Cledisquélson, contaminado, não suportou a lógica e foi internado à revelia. Os moradores comentaram o episódio apenas naquela tarde e nunca mais. Sua mãe não esboçou a menor crise existencial. Tinha mais sete para criar afinal.

Mataria-se às cinco — tempo o suficiente para que nenhum gramático ortodoxo lhe dissesse que o correto é matar-se-ia às cinco. Seguiu trôpego para o banheiro e sentou na privada, completamente nu. Ficaria o tempo necessário, seu traseiro era o único (e infeliz) usuário daquele púlpito fecal. Relaxou. O que era esperado começou a descer lentamente. Tomou com as mãos um livro que estava por perto. O Cânone Ocidental. Folheou. Súbito, viu-se em apuros: o papel higiênico acabara. O que fazer? A quem recorrer? Sua existência se converteu num amontoado tosco de entulhos. A carência por um divã já ameaçava surgir, mas um olhar para um ponto específico o salvou; um olhar convergido diretamente para o livro que ora estava em suas mãos. Faria bom proveito de tudo que ele dispunha ali, e logo após daria continuidade ao seu plano. Às cinco. Um horário conveniente, prático, charmoso. Como um chá inglês. Sentiu orgulho de si próprio. Tinha plena articulação. De ninguém dependia. A última dificuldade da qual fora acometido rapidamente fora resolvida por um simples e único irrefletido olhar. Um empreendedor, um estrategista. Wall Street ou o Pentágono desperdiçavam um talento nato e independente.

A demora na privada, porém, tornou-se incomum. Ainda havia algo mais a ser expelido (e seria), mas o esforço empregado estava ficando demasiado intenso. Inerte, submetido a si mesmo, tomado completamente por sua fisiologia, eis que aconteceu o inesperado, o inevitável, mas nem um pouco surpreendente: subitamente seu intestino escorregou por entre suas nádegas rumo à gélida água do vaso sanitário. Nenhuma palavra, pensamento ou gesto lhe bastou. Sua figura pitoresca transbordou sobre aquele recinto. Seus olhos irradiaram o horror daquela situação. Não sabia o que fazer. A sofisticação e a nobreza se dissiparam daquela figura que lera Dostoievski e se especializara na Sorbonne. Procurou ouvir algum ruído além de suas flatulências, mas o silêncio era ensurdecedor. Provavelmente estivera apenas imaginando coisas, conjeturando possibilidades de um enredo para um futuro romance — atitude típica e aceitável a indivíduos como ele. Riu. Muito embora não lhe causasse tantos deslumbramentos isso a que chamam de realismo fantástico, a idéia lhe pareceu interessante e até passível de ganhar algum prêmio. Levantaria e arquivaria tal imagem — mas até às cinco.  

Não conseguiu se levantar entretanto. Imperturbável, o intestino se via pendurado entre seu orifício e a água caramelada da latrina. Procurou se acalmar. Indagações estupefatas, embora pertinentes ao momento, não lhe seriam úteis. Olhou ao redor. A pia surda e pura recebia gotas intermitentes da torneira. O chuveiro de metal, em sua estrutura fálica, parecia zombar da analidade aborrecida deste homem. Algumas roupas sujas num cesto, e o livro ainda em sua mão se lhe mostravam indiferentes. Não era nem um pouco trágico o cenário que o envolvia – ao contrário de sua condição -, mas a fatalidade se desenhava implacável. Tripas serenamente se mantinham suspensas em sua cavidade anal. Não metafórica, mas literalmente.  

Ele evidentemente não permaneceria ali por toda a eternidade. Tinha planos. Teria que se erguer e se livrar daquela incômoda saliência de uma vez por todas. Ameaçou se levantar. Largou o livro no chão, apoiou ambas as mãos nas coxas e se esforçou. Como tudo aquilo pesava! Enfim conseguiu. Entretanto não pôde evitar que do órgão escorresse um líquido viscoso de cor marrom e sujasse suas pernas. Olhou para baixo. A visão lhe causou injúrias, o peso desconforto. Se continuasse naquela posição, seria irresistível manter-se de pé. Não havia outra escolha senão usar as mãos na tentativa de lhe arrancar aquilo do corpo. Um arrepio o percorreu, seus dedos, previamente abalados, deixaram-se guiar rumo ao desgosto. O grotesco que se manifestava naquela situação era excessivamente nauseante.  

De posse já de suas mãos, o intestino desenvolvia múltiplas contrações, como algo cuja vitalidade fosse independente de qualquer fonte de energia. Estranho não ter controle sobre tudo, pensou levianamente. Seja como for, não havia espaço para inquietações acerca da insignificância humana diante de suas próprias vísceras. Tudo estava bem claro, a imagem superava qualquer outra forma de linguagem e a praticidade devia fazer valer seu reino. Logo, suas mãos começaram a puxar o órgão, que resistia. Além de pesado, resistente em sua impertinente existência. Foi então que ele percebeu que a razão do peso era a substancial quantidade de fezes ainda guardada. Era intolerável. Como resultado, vomitou. O chão, já decorado por uma coloração castanha, agora se assemelhava a uma pintura surrealista. Pelo menos minhas entranhas não vão ter mais com o que se ocupar, constatou aliviado.  

O telefone tocou. Não atenderia, é claro. Estava demasiado ocupado para empreender uma caminhada até a sala com um intestino entre as pernas. E, além do mais, tinha planos para as cinco horas. Não podia se atrasar. O toque porém se fazia insistente, como se o aparelho clamasse por socorro imediato, como se nada pudesse saciá-lo a não ser o ato de atendê-lo. Transtornado, não lhe restou outra escolha. A despeito dos excrementos que escorriam por suas pernas e atingiam o solo, ele percorreu alguns cômodos até alcançar o fone. Atendeu.  

— Olá, professor. Consegui terminar a dissertação finalmente. Queria que o senhor a lesse. Acho que não há mais nada a acrescentar, tudo está lá. Suas últimas indicações foram perfeitas e… Professor? 

Tratava-se de uma aluna que ele ora orientava no mestrado. 

— Como você pode ligar numa hora tão inconveniente?! — limitou-se a pensar. Ainda calado, pôde sentir a respiração ofegante da jovem. Teria que dar uma resposta definitiva.  

— Ana, eu não posso falar agora. Problemas me afligem e… bem, tenho que desligar – disse atrapalhado. 

O fone foi posto de volta ao seu lugar e Ana não teve a oportunidade de se justificar. Tudo estava por se dizer, mas nada fora dito.  

O malabarismo formal de que fizera uso para se livrar da aluna foi rapidamente abandonado quando ele se viu de volta comprometido por seu intestino. Retornou para o banheiro num andar grosseiramente cômico e deu continuidade ao processo de estica e puxa. Esticando para que o restante das fezes saísse, e puxando para que se livrasse de uma vez por todas daquele incômodo órgão. Tão empenhado em seu serviço estava, tão alienantes e mecânicos eram seus movimentos que o despudor se fazia em seu estado lato. Livrar-se daquilo se traduziu numa excitação física alucinada. De cócoras no banheiro, com as mãos num incessante trabalhar, ele chegaria à satisfação plena de suas perversões não fosse pela interrupção de alguém ao pé da porta.  

— Professor? 

Repentinamente ele se virou e se deparou com Ana. Um silêncio constrangedor seguiu a indagação. Novamente o que estava por se dizer não seria dito. 

— É inútil todo este esforço — começou Ana, ao contrário de qualquer previsão — O comprimento de um intestino pode chegar a sete metros, logo, não é adequado que ele seja extraído, mas sim empurrado de volta ao seu devido lugar. Não se preocupe, eu aj…   

Foi interrompida: 

— Mas o que você faz aqui?! É muita ousadia vir até minha casa me dizer como devo lidar com meu corpo… 

Na condição em que ele se encontrava, era aceitável seu comportamento agressivo, por isso Ana ponderou. Conhecia-o suficientemente para saber que algo de errado se passava. Tinha uma cópia da chave de seu apartamento e não hesitou em utilizá-la. Aproximou-se lentamente. Ajudá-lo-ia. Embaraçado não só pelo súbito surgimento daquela mulher, mas também por seu deteriorado e condenável estado, ele sucumbiu sobre o lodaçal que o cercava. Ela o acudiu pelos braços. A solidariedade humana não tinha limites. A crueldade e a incompreensão também não.  

— Me largue! — ele gritou. Era-lhe imperdoável ser socorrido. Fosse por quem fosse. — Saia daqui! 

Ela não obedeceu. Disse que ele precisava de auxílio. Ele negou. Ela insistiu. Uma nova batalha era agora travada. Olhares lamuriosos foram trocados. A bondade de Ana lhe conferiu a justa condição de superioridade. Sem mais recursos, ele encheu uma das mãos com excrementos e os lançou contra ela. Tomada pelo terror e lágrimas, Ana fugiu sob uma eloqüente saraivada fecal. Saiu do apartamento, batendo com força a porta. Apaixonara-se.  

Embriagado e imerso na lama marrom, o homem tinha um aspecto contrito em sua face. Um choro convulso se sobressaiu. As cinco horas se aproximavam. Seu plano seria destruído. O caminho resoluto não seria trilhado. Ana tinha razão. Ana não se especializara na Sorbonne, e, no entanto, tinha razão. Não, não se livraria do intestino. Se fosse realmente se matar, teria que fazê-lo em sua integridade física. E às cinco. Apressou-se. Ergueu-se e, com ambas as mãos, investiu contra o órgão para que ele voltasse ao seu lugar. Aos poucos obteve resultado. Por fim conseguiu. Ou pelo menos achou que tinha conseguido. Sustentara sua crença na dúvida. Lavou-se no boxe, mas um estupor o acometeu. Saiu trôpego em direção a um cômodo do apartamento. A impotência se acentuara. Apoiou-se numa estante de livros, derrubando-a ao seu lado. Decaído, tomou em suas mãos um livro que viera junto. Folheou precipitadamente e parou numa página onde se travava um diálogo:  

— Onde é o paraíso? 

— O paraíso é aqui. 

— E o inferno? 

— É aqui para quem não sabe que aqui é o paraíso.  

Seus sentidos lhe foram inteiramente roubados. Para as cinco, faltavam dois minutos. Levantou-se e caminhou para a janela. Calculou insensatamente a queda e concluiu que, se saltasse agora, chegaria lá embaixo exatamente às cinco da tarde. Seu plano portanto estaria rematado e sua existência pela primeira vez submetida unicamente a ele. Desta forma, pulou da janela. Uma criança na praça se alegrou com aquele corpo nu que rapidamente se desprendeu no ar. Nenhuma imagem onírica se fez presente porém. Sua ruína foi dura, rigorosa, implacável. Ana, chorosa, aproximou-se. Estivera na portaria aguardando um momento para retornar. Seus cabelos negros e cacheados esvoaçaram. Ele vivia. Não acreditava, mas vivia. Pulara do terceiro andar, uma altura relativamente pequena. Resoluto de suas convicções, ele não acreditou e hesitou fazer a pergunta. Ana tomou sua mão entre as suas e a comprimiu. Enfim perguntou.  

— Que horas são? 

A jovem elevou o pulso esquerdo e, logo, respondeu: 

— 4h59min. 

Fracassado, ele dilatou suas pálpebras. Estaria a teoria gravitacional errada? Os cálculos de Newton teriam sido vãos? Seja como for, não lhe restou outro subterfúgio senão constatar que não se podia ter controle sobre tudo. Como não estava num bairro suburbano, uma ambulância rapidamente surgiu na esquina. Dois homens maquinalmente o suspenderam e o embalaram numa maca. Parte de seu intestino pendeu para o lado e o acusou. Irresoluto, ele seguiu sua viagem sob os olhares apaixonados de Ana e o barulho contínuo da sirene. A vergonha o sobrevivia e zombava de sua vida com saborosas baforadas de charuto cubano.

Sua vida estava arruinada. Jamais teria a tranqüilidade, o sossego, a lucidez. Comera proteína animal. Pior: fora flagrado por seu terapeuta alimentar. Que vergonha. Não lhe restou outra escolha senão sair correndo. Que explicação poderia ter dado para aquela assustadora cara de reprovação? Que confundira a iguaria com uma barra de cereal? Não, decididamente não. Seria inaceitável, absurdo, irracional para alguém que supostamente tem consciência ecológica. Certamente seria expulso do grupo. Muito provavelmente teria eliminada qualquer chance de fazer parte do Greenpeace. Seu terapeuta o vira. Causa e efeito: rejeição, sons de muxoxo, balanços negativos de cabeça e dedos inquisidores de seus camaradas. Tudo por causa de uma simples lasca de carne seca crua exposta no balcão do supermercado. Ora bolas, fora-lhe irresistível. Coma-me, exigia aquela gordurinha branca. Salve-me deste deserto salino e inóspito. É-me insuportável dividir a prateleira com este toucinho ensebado. Salve-me deste vale de tristezas! E pronto, ele já a levava à boca em sua missão heróica. Questão de cinco segundos. Tempo suficiente para ser visto cometendo a heresia.

Trancou-se em seu loft ofegante. Grudado à porta, fixou seus olhos num horizonte inexistente. E agora?, balbuciou. Malditos supermercados varejistas! Como ousavam exibir impunemente pedaços de lombo, paio, bucho, pé de porco e língua de boi? O que imaginavam que seus clientes fossem? Aborígines da pós-modernidade? Veja só a que ponto chegara a selvageria humana: já não bastasse o genocídio mundo afora, agora pedaços salgados de animais incitando o consumo desordenado…

Afinal no que ele pensava quando pôs aquilo na boca?! Tolo. Desperdiçou anos de aprendizado, de ideologia, de luta, de estilo de vida. Desperdiçou sua própria existência. Levou as mãos ao rosto para se esconder do vexame e evitar sua ruína. O suor lhe brotava impaciente. Passou o braço na testa e visualizou sua subida ao cadafalso. Na platéia, o populacho raivoso segurava miudezas de feijoada e mocotó. A corda de enforcamento exalava cheiro de bacon passado. O carrasco trajava uma roupa velha. Ele, uma capa de contrafilé.

Bateram na porta. De volta à sua misericordiosa realidade, ele se afastou trêmulo. Quem poderia ser? Seus camaradas desapontados? Nutricionistas em busca de alto colesterol? Uma legião furiosa de verduras traídas? Instituições de tratamento à gordura localizada? Vendedores de frutas desidratadas? Não, ele não abriria a porta. Não devia ser ninguém afinal. Provavelmente alguma brisa de fim de outono. Respirou aliviado.

Bateram novamente. Três pancadas. Incômodas como três facadas numa picanha que deixava bezerros desmamados. Seja quem fosse, estava efetivamente disposto a entrar. Seja quem fosse, por que não tocava a campainha? Estavam no século XXI no fim das contas. Tenso, ele caminhou lentamente no receio de que seus passos causassem um terremoto. Subitamente caiu em si. Seus temores talvez fossem infundados. Quanta bobagem sua mente fértil se dispunha a criar. Riu. Era só dizer ao vendedor que não estava interessado e pronto. Tinha boca para isso também. Pôs a mão sobre a maçaneta de metal embaçado e a girou. Abriu a porta e suas últimas certezas se revelaram totalmente ilusórias. Seu terapeuta alimentar o enfrentava impávido e saudável. Vinha de uma aula de pilates seguida por um almoço rico em fibras.

Não! Não havia mais escapatória. Seu veredicto seria pronunciado ali naquele momento a despeito de sua vontade e sem qualquer chance a um último pedido. Talvez fosse justo, embora ele não estivesse pronto. Talvez fosse necessário, embora ele não concordasse. Noves fora, que criminoso consideraria aceitável a sua sentença? Lembrou-se de seu passado decadente, de sua irresponsabilidade gastronômica, de seu desleixo com as leguminosas e abuso de carboidratos, de suas funções gástricas atormentadas. Até que aquele obscuro e rígido grupo de vegetarianos o salvara. Na adoração de alfaces, acelgas e agriões, ele encontrara a felicidade. Na visita a um maldito supermercado popular, ele comprara sua desgraça. Oh, mundo cruel. Só faltava o SBT exibir sua história.

O terapeuta entrou e se sentou numa poltrona. Uma luminosidade outrora ausente invadiu o aposento, dando-lhe um aspecto insuportavelmente asséptico. Certamente equilíbrio de vitamina B12 e Cálcio.

— O grupo está muito desapontado, Gerald — disse o terapeuta cruzando as pernas. — Você sabe que um erro dessa magnitude tem efeito devastador e põe em dúvida todo nosso aparato ideológico. Você deve ser punido, Gerald.

Gerald estava disposto a interceder, mas o espaço lhe foi roubado pela crueza típica dos algozes e componentes clorofilados.

— Beije meus pés.

A incompreensão transbordou seu entendimento. Sim, eram pés limpos, mas não deixavam de ter unhas, sinuosidades e dez dedos. Fechou a porta atrás de si e seguiu na direção de seu terapeuta. Uma sonata em dó maior soava ao longe sob a regência de algum maestro esquizofrênico. Não era o pior destino que alguém poderia ter.

— Você trouxe a lasca de carne seca? — perguntou o terapeuta salivante enquanto Gerald se ajoelhava.

A sonata em dó maior deu lugar a uma inquieta sinfonia. O ambiente foi tomado pela nebulosidade. Gerald sorriu maliciosamente, sacou de seu bolso um pé de porco grudado em dois torresmos e finalizou:

— Melhor do que isso?

Farsa acadêmica

— Você aceita? — ele perguntou com aquele típico olhar, segurando uma pequena caixa da H. Stern.

— Oh, meu Deus! — ela respondeu com aquele típico sorriso, segurando parte de sua dissertação de mestrado.

Conheceram-se na graduação. Debateram o conceito platônico do cristianismo e iniciaram um namoro. Crises existenciais, discordâncias epistemológicas e o movimento hippie não foram capazes de separá-los. Agora, ele propunha um casamento. O anel, ainda não quitado, reluzia naquela tarde de outono neoliberal.

— Não sei, talvez seja prematuro demais, ela ponderou. — Além disso, pra que casarmos se você é estéril?

— Lá vem você de novo com esse papo… — queixou-se. — Será que não dá pra abandonar esse determinismo biológico de uma vez por todas?

— Do que você está falando?

— De você querer ser mãe a todo custo, de querer reproduzir mecanicamente o que a natureza designa a todos sem exceção: a perpetuação da espécie humana.

— Diga o que quiser, meu bem — levantou-se. — Seu aparato de tolices chamuscado de um verniz racional jamais será o bastante para minha quantidade de estrogênio.

— Mas você não me ama? — suplicou.

— O que é o amor?

— Não importa! — bradou. — Case comigo.

— Olha aqui — retomou decidida. — Se você quer fazer uma cena, sugiro que leia antes algum romance de banca de jornal e mude também o lugar das vírgulas.

— Cínica! — ele gritou, seus olhos já embotados traduziam seu desespero.

— Por que tanto desespero, meu bem? — perguntou, insuportavelmente serena. — Apenas devolva o anel ao joalheiro e venha me ajudar no meu mestrado.

Ele, no entanto, lançou a caixinha do anel ao chão e disse:

— Nietzsche tinha razão: devemos sempre levá-las no açoite…

— Tente — desafiou.

— Eu não. Pra depois você vir me dizer que meu estruturalismo não é páreo para a sua semiologia…

— E não é mesmo — zombou, fazendo um gesto com o polegar e o indicador numa alusão ao tamanho insignificante de algo.

— Ah, é? — ele estufou o peito desafiador. — Pois você vai ver! Defenderei minha dissertação no mesmo dia que você, e ela será exatamente aquilo que você mais teme: uma desconstrução!

Soar de trombetas, rufar de tambores, feridas de violino. O terror lhe invadiu a alma. Subitamente, ela se viu numa enrascada da qual seria impossível escapar. A não ser que…

— Espere! — chamou.

Ele ouviu mas bateu a porta e desceu a escada. Estava assegurado o suspense e o controle sobre ela. Talvez o açoite a que Zaratustra se referira. Angustiada e ciente da sua futura ruína perante a academia, ela rapidamente tratou de arquitetar um plano sobre o qual até mesmo Umberto Eco perderia algumas horas meditando.

Correu ao quarto, abriu o guarda-roupa e pegou uma almofada. Deu duas ou três sacudidas nela e a pôs sob o vestido na altura do ventre. Riu vitoriosa: estava grávida. Como ele faltara às aulas de figuras de linguagem e gêneros literários, jamais suspeitaria que ali se desenrolava uma farsa apoiada numa retórica de metáforas. Palavras estas, aliás, que ela considerou um tanto difíceis de se pronunciar mas que sempre impressionavam seus alunos estúpidos. Sua dignidade diante da academia estava assegurada. Sua aprovação se daria com o devido louvor.

Um quarto de hora depois, ele voltou com alguns papéis debaixo do braço. Prováveis anotações que se somariam à sua vingança contra a insaciável e amada mulher. Fechou a porta e, ao se virar, deparou-se com ela. Imaculada, fascinante, sofisticada. E com algum inchaço na região abdominal.

— Estou grávida — anunciou solenemente. — Case comigo.

— Aahh! — ele vibrou, pegando-a nos braços e girando-a no ar com aquela costumeira pieguice.

A licença poética permitiu que o tempo passasse rápido e o bebê logo nascia. Duas ou três linhas significaram nove meses, e as dores do parto duraram nada mais do que o tempo que se leva para ler “dores do parto”. Na sala de operações, a enfermeira gritou:

— É uma menina!

Enquanto tentava segurá-la com relativa dificuldade.

— Nossa, mas é tão escorregadia, fluida, confusa… — e disfarçou em seguida com um “que bonitinha”, fazendo o costumeiro e fingido biquinho.

— Qual será o nome dela? — indagou um anestesista.

Orgulhoso, o suposto pai respondeu num sorriso maldoso que só os acadêmicos sabem fazer:

— Pós-modernidade.

para Ana Alencar

— Pois não?

— Me vê um quilo e meio de Baudelaire e dois de Cony, por favor?

Afastando-se do balcão, o funcionário diz:

— Já sabe da promoção de hoje, dona? Levando meio quilo de Guimarães Rosa, grátis duzentos gramas de Proust.

— Ah, é? Parece tentador, mas as crianças não gostam e é provável que estrague… Talvez outros fregueses se interessem, obrigada.

— Tá legal, confirmando então: um e meio de Baudelaire… — checando na balança. — Pode ser um e seiscentos?

— Tire algumas metrificações, por favor. Isso… Está bom.

— E dois quilos de Cony, madame?

Ela confirma com um aceno.

— Um novecentos e cinqüenta. Posso ensacar?

— Sim, é o bastante.

Ele ensaca a mercadoria e a entrega. Tomando o pacote com as mãos, ela diz hesitante:

— Estive pensando… acho que vou querer levar a promoção de hoje sim. Se as crianças não quiserem, a empregada leva pra casa. Mas será que dá pra ser Guimarães Rosa sem muito neologismo e Proust com uma fina capa de vírgula?

— A senhora quem manda!

— Mas escuta: não está fora da validade, está?

Visivelmente ofendido, o funcionário decreta:

— Nunca!

— Acho bom, porque já me venderam Bukowski com gosto de Caninha da Roça. Não que eu costume beber, mas foi no mínimo desagradável… Imagine que eu estava prestes a receber meus sogros em casa, e eles são membros de uma seita evangélica por demais conservadora. Tive que ir às pressas ao mercadinho da esquina e me virar com setecentos gramas de Álvares de Azevedo — pondo a mão sobre o seio esquerdo: — Um horror! Mas eles adoraram, sentimentais como são…

— Aqui está — dando-lhe o pacote. — Algo mais?

— Não, chega! O senhor quer que eu engorde?

— Mal não faria… — provocou uma menina na fila.

— Mas o que é isso? — fez a mulher, surpresa. — Crônica de Rubem Braga?

— Pior — respondeu o funcionário, lacônico na medida certa.

— Bem, mas eu não tenho tempo pra isso — disse resoluta. — Preciso preparar essas coisas todas ainda hoje. Além do mais, esqueci de tirar André Gide do congelador.

— Mas não tem quem a ajude? — perguntou um faxineiro.

— Geralmente esta é uma tarefa solitária — suspirou. — E minha empregada tem andado um tanto pessimista depois de Sartre.

— Pobrezinha… — lamentou a menina na fila. — Tente três colheres de sopa de Veríssimo. Quem sabe ela não melhora?

Sentindo-se irremediavelmente sufocada e confusa, a mulher tentou concluir:

— Pode ser.

Saiu da fila rumo ao caixa num vagaroso e reflexivo andar. Lá fora o sol se erguia e consigo carregava o dia. Cá dentro, ela — pela primeira vez — pensava na possibilidade de fazer poesia. Limitada sempre a fronteiras estéticas e retida em enredos alheios, ela jamais ousara ou flertara com a idéia. Talvez fosse a hora de colocar pimenta na comida envenenada. Talvez fosse a hora do fiat lux, ou, para os desconhecedores de latim, do faça-se a luz.

Dirigiu-se à fila de gestantes e idosos — apesar de não pertencer mais à primeira categoria e ainda vir a ser da segunda –, pagou a quantia rapidamente, indiferente à oferta anunciada no microfone do popular Cristóvão Tezza, e seguiu para o estacionamento. Tinha pressa. Entrou no carro, confundiu embreagem com freio, mas enfim deu a partida. Quinze minutos de uma angustiante, perturbada e produtiva viagem até chegar à sua casa. Jogou as sacolas com todos aqueles literatos no chão da cozinha e se sentou na frente do computador. A refeição do dia teria que esperar. Respirou fundo e, triunfante, declamou:

— Escrever é uma maneira de não ler. E vingar-se por ter lido tanto.

Deu-se por conta, porém, que essa não era uma frase originariamente sua. Tampouco hereditariamente de William Oliveira. Era de Schopenhauer.

Aflita, ela então subitamente se perguntou:

— Quem é William Oliveira?

Pegue um mapa e teste seus conhecimentos de história,  pois tudo sempre começa antes de nós. Eu nasci em uma cidade próxima àquela que já foi o fim do mundo, no tratado de Tordesilhas, depois foi República Juliana, e agora é só um balneário. Minha cidade natal tem o mesmo nome dos vilões de “O velho e o mar”. Mas saí de lá tem algum tempo. Fui para o norte deste Estado, morei na cidade que foi dote de princesa portuguesa feia a um príncipe francês apalermado. Seu orgulho atual  é ser sede da única filial do Balé Bolshoi no mundo, e ter o Domenico de Masi a dizer que ali todos entenderam como deve ser uma sociedade pós-industrial (é uma cidade de colonização germânica, então eles acreditam facilmente em tudo, não sabem até onde vai a velhacaria de um italiano).

E também não moro mais lá; subi a serra, como se diz por aqui, e agora moro em uma cidade que por pouco escapou do Contestado, nossa Canudos.  Aqui todos adoram pensar que por causa da colonização são ainda alemães e uma vez por ano surtam coletivamente. É quando os homens desfilam de bermudas com suspensório bordado, e as mulheres com flores de plástico na cabeça. Depois se embebedam no clube mais tradicional, e cumprem em casa sua orgia, porque orgia aqui só funciona se for um dever (não deve ser por acaso que o nome da festa em alemão é “festa da matança”). Aqui tem retreta no verão, velhos e novos nazistas e uma ou outra pessoa normal (como eu). Não tem cinema, não tem teatro, na vídeo-locadora só tem filme que foi sucesso de público, e quando aparece um fracasso a moça me diz: “detestei um filme aí, acho que desse você vai gostar”.  Sabe, ela é muito bonita, pessoas com grande auto-estima são sempre assim simples, e eu gosto.

A única livraria da cidade é uma indecência, sua dignidade está em ter uma proprietária louca, que por sinal gosta muito de mim. Esses tempos eu encomendei uns livros do Borges (é, eu gosto do gênero, fazer o quê?) e ela cismou que eram livros de Direito por causa do meu curso (eu já estou antecipando algumas coisas) e porque o Juiz do Trabalho, por coincidência, havia encomendado também. Se fosse só isso: o cara comentou que eu devia ser uma de seus colegas da Sociedade Teosófica! Ah, eu já ia esquecendo: tem também uma tal de Sociedade Literária. Na verdade, é uma espécie de biblioteca (todos os seus membros doam seu acervo quando morrem). Só entrei lá uma vez, primeiro por que o velhinho que toma conta — ele é o Presidente — me fez questão de mostrar os livros escritos em alemão, e como de alemão eu só sei meu sobrenome, ele ficou lamentando o que o Getúlio fez. Segundo porque na hora de ir de embora não soltava da minha mão e eu percebi que se tratava de um velho tarado. E eu tenho medo de velho tarado, você não tem não? Saí com uma edição velhérrima de “Casa Grande e Senzala”, deixei vinte reais com a velhinha da tesouraria, dizendo que queria antecipar algumas mensalidades, não voltei nem vou voltar.  Às vezes eu tenho que passar em frente, o velhinho está lá na porta e eu atravesso a rua, virando a cara para as vitrines. A minha sorte é que ele vai morrer antes de mim, Deus às vezes é sábio.  

O que mais? Aqui faz sempre frio, se não é de dia é de noite, e agora mesmo estou usando uma blusa de lã. Acho que é só. Claro, você já deve ter percebido: a cidade é pequena, todo mundo se conhece e se detesta etc.  Este é o meu contexto.  Sobre o que estudo, eu já disse. É Direito. Eu tinha quase certeza que com aquele papo de pedagogia do Freire, algumas literatices, uma salada de morfologia e mais algum gosto musical duvidoso, você me enquadraria entre as meninas que fazem letras. Você é muito inteligente, William, mas sofre de ingenuidade. E tem um gosto tão apurado, que não deve ter lido muito romance policial para saber que as pistas que se deixam são sempre falsas.

Desculpe, eu não quis agredi-lo, eu também  só quero rir um pouquinho. Revido por você: eu também catalogo as pessoas. Só não tenho qualquer pretensão literária, se quer saber. A única ambição artística que tive um dia foi o de fazer artes plásticas. Não que eu tivesse talento, mas desejava muito poder levar uma vida inteira tentando pintar uma só tela bonita. Uma vida inteira para tentar, era só isso. Mas não era sensato, salvo se eu fizesse um outro curso e só pintasse para decorar minha casa quando casasse. Negociei com o mundo (eu gosto mais: negaciei), aceitando estudar outra coisa, mas destruindo todo meu material e tudo o quanto já havia tentado. Não fiz birra de menina mimada, externamente foi tudo muito pacífico. Mas pintar para ser uma esposa prendada, nem pensar. Prefiro mandar tudo pro inferno, quando morrer pintar um auto retrato ao lado do capeta e, se antes disso eu enlouquecer, que fique tudo exposto no Museu do Inconsciente da dra. Nise. Não abro um livro de arte, não entro em nenhuma galeria, não quero mais. Sofro muito quando vejo os que conseguiram e acho um insulto tanta gente se apresentar pronta quando nem tentar eu pude. Claro que tive depressão por causa disso, mas nem o Prozac me fez acreditar naquela porcaria de psiquiatra que me disse que eu estava com pena de mim. Dei alta pro cara, coitado, ele não sabe o que é uma decisão (ir) resoluta, como você diz, e me conhecia muito pouco para entender que sei me cuidar sozinha.  

Este foi meu texto. Você pediu para travarmos um diálogo sadio, William, mas na verdade, se isso continuar, serão sempre monólogos que se intercalam, e isto intrinsecamente é patológico. Não consigo ainda lhe dizer o meu nome, ser mais concreta. Sei que você deve achar pouco, mas acredite, o tanto que já lhe dei, para mim, foi muito. Reservar-me o direito ao anonimato não é pedir demais, é? Pode me chamar de mocinha, se quiser. Pra ser franca, eu gostei.

Obrigada.