Mataria-se às cinco — tempo o suficiente para que nenhum gramático ortodoxo lhe dissesse que o correto é matar-se-ia às cinco. Seguiu trôpego para o banheiro e sentou na privada, completamente nu. Ficaria o tempo necessário, seu traseiro era o único (e infeliz) usuário daquele púlpito fecal. Relaxou. O que era esperado começou a descer lentamente. Tomou com as mãos um livro que estava por perto. O Cânone Ocidental. Folheou. Súbito, viu-se em apuros: o papel higiênico acabara. O que fazer? A quem recorrer? Sua existência se converteu num amontoado tosco de entulhos. A carência por um divã já ameaçava surgir, mas um olhar para um ponto específico o salvou; um olhar convergido diretamente para o livro que ora estava em suas mãos. Faria bom proveito de tudo que ele dispunha ali, e logo após daria continuidade ao seu plano. Às cinco. Um horário conveniente, prático, charmoso. Como um chá inglês. Sentiu orgulho de si próprio. Tinha plena articulação. De ninguém dependia. A última dificuldade da qual fora acometido rapidamente fora resolvida por um simples e único irrefletido olhar. Um empreendedor, um estrategista. Wall Street ou o Pentágono desperdiçavam um talento nato e independente.
A demora na privada, porém, tornou-se incomum. Ainda havia algo mais a ser expelido (e seria), mas o esforço empregado estava ficando demasiado intenso. Inerte, submetido a si mesmo, tomado completamente por sua fisiologia, eis que aconteceu o inesperado, o inevitável, mas nem um pouco surpreendente: subitamente seu intestino escorregou por entre suas nádegas rumo à gélida água do vaso sanitário. Nenhuma palavra, pensamento ou gesto lhe bastou. Sua figura pitoresca transbordou sobre aquele recinto. Seus olhos irradiaram o horror daquela situação. Não sabia o que fazer. A sofisticação e a nobreza se dissiparam daquela figura que lera Dostoievski e se especializara na Sorbonne. Procurou ouvir algum ruído além de suas flatulências, mas o silêncio era ensurdecedor. Provavelmente estivera apenas imaginando coisas, conjeturando possibilidades de um enredo para um futuro romance — atitude típica e aceitável a indivíduos como ele. Riu. Muito embora não lhe causasse tantos deslumbramentos isso a que chamam de realismo fantástico, a idéia lhe pareceu interessante e até passível de ganhar algum prêmio. Levantaria e arquivaria tal imagem — mas até às cinco.
Não conseguiu se levantar entretanto. Imperturbável, o intestino se via pendurado entre seu orifício e a água caramelada da latrina. Procurou se acalmar. Indagações estupefatas, embora pertinentes ao momento, não lhe seriam úteis. Olhou ao redor. A pia surda e pura recebia gotas intermitentes da torneira. O chuveiro de metal, em sua estrutura fálica, parecia zombar da analidade aborrecida deste homem. Algumas roupas sujas num cesto, e o livro ainda em sua mão se lhe mostravam indiferentes. Não era nem um pouco trágico o cenário que o envolvia – ao contrário de sua condição -, mas a fatalidade se desenhava implacável. Tripas serenamente se mantinham suspensas em sua cavidade anal. Não metafórica, mas literalmente.
Ele evidentemente não permaneceria ali por toda a eternidade. Tinha planos. Teria que se erguer e se livrar daquela incômoda saliência de uma vez por todas. Ameaçou se levantar. Largou o livro no chão, apoiou ambas as mãos nas coxas e se esforçou. Como tudo aquilo pesava! Enfim conseguiu. Entretanto não pôde evitar que do órgão escorresse um líquido viscoso de cor marrom e sujasse suas pernas. Olhou para baixo. A visão lhe causou injúrias, o peso desconforto. Se continuasse naquela posição, seria irresistível manter-se de pé. Não havia outra escolha senão usar as mãos na tentativa de lhe arrancar aquilo do corpo. Um arrepio o percorreu, seus dedos, previamente abalados, deixaram-se guiar rumo ao desgosto. O grotesco que se manifestava naquela situação era excessivamente nauseante.
De posse já de suas mãos, o intestino desenvolvia múltiplas contrações, como algo cuja vitalidade fosse independente de qualquer fonte de energia. Estranho não ter controle sobre tudo, pensou levianamente. Seja como for, não havia espaço para inquietações acerca da insignificância humana diante de suas próprias vísceras. Tudo estava bem claro, a imagem superava qualquer outra forma de linguagem e a praticidade devia fazer valer seu reino. Logo, suas mãos começaram a puxar o órgão, que resistia. Além de pesado, resistente em sua impertinente existência. Foi então que ele percebeu que a razão do peso era a substancial quantidade de fezes ainda guardada. Era intolerável. Como resultado, vomitou. O chão, já decorado por uma coloração castanha, agora se assemelhava a uma pintura surrealista. Pelo menos minhas entranhas não vão ter mais com o que se ocupar, constatou aliviado.
O telefone tocou. Não atenderia, é claro. Estava demasiado ocupado para empreender uma caminhada até a sala com um intestino entre as pernas. E, além do mais, tinha planos para as cinco horas. Não podia se atrasar. O toque porém se fazia insistente, como se o aparelho clamasse por socorro imediato, como se nada pudesse saciá-lo a não ser o ato de atendê-lo. Transtornado, não lhe restou outra escolha. A despeito dos excrementos que escorriam por suas pernas e atingiam o solo, ele percorreu alguns cômodos até alcançar o fone. Atendeu.
– Olá, professor. Consegui terminar a dissertação finalmente. Queria que o senhor a lesse. Acho que não há mais nada a acrescentar, tudo está lá. Suas últimas indicações foram perfeitas e… Professor?
Tratava-se de uma aluna que ele ora orientava no mestrado.
– Como você pode ligar numa hora tão inconveniente?! — limitou-se a pensar. Ainda calado, pôde sentir a respiração ofegante da jovem. Teria que dar uma resposta definitiva.
– Ana, eu não posso falar agora. Problemas me afligem e… bem, tenho que desligar – disse atrapalhado.
O fone foi posto de volta ao seu lugar e Ana não teve a oportunidade de se justificar. Tudo estava por se dizer, mas nada fora dito.
O malabarismo formal de que fizera uso para se livrar da aluna foi rapidamente abandonado quando ele se viu de volta comprometido por seu intestino. Retornou para o banheiro num andar grosseiramente cômico e deu continuidade ao processo de estica e puxa. Esticando para que o restante das fezes saísse, e puxando para que se livrasse de uma vez por todas daquele incômodo órgão. Tão empenhado em seu serviço estava, tão alienantes e mecânicos eram seus movimentos que o despudor se fazia em seu estado lato. Livrar-se daquilo se traduziu numa excitação física alucinada. De cócoras no banheiro, com as mãos num incessante trabalhar, ele chegaria à satisfação plena de suas perversões não fosse pela interrupção de alguém ao pé da porta.
– Professor?
Repentinamente ele se virou e se deparou com Ana. Um silêncio constrangedor seguiu a indagação. Novamente o que estava por se dizer não seria dito.
– É inútil todo este esforço — começou Ana, ao contrário de qualquer previsão — O comprimento de um intestino pode chegar a sete metros, logo, não é adequado que ele seja extraído, mas sim empurrado de volta ao seu devido lugar. Não se preocupe, eu aj…
Foi interrompida:
– Mas o que você faz aqui?! É muita ousadia vir até minha casa me dizer como devo lidar com meu corpo…
Na condição em que ele se encontrava, era aceitável seu comportamento agressivo, por isso Ana ponderou. Conhecia-o suficientemente para saber que algo de errado se passava. Tinha uma cópia da chave de seu apartamento e não hesitou em utilizá-la. Aproximou-se lentamente. Ajudá-lo-ia. Embaraçado não só pelo súbito surgimento daquela mulher, mas também por seu deteriorado e condenável estado, ele sucumbiu sobre o lodaçal que o cercava. Ela o acudiu pelos braços. A solidariedade humana não tinha limites. A crueldade e a incompreensão também não.
– Me largue! — ele gritou. Era-lhe imperdoável ser socorrido. Fosse por quem fosse. — Saia daqui!
Ela não obedeceu. Disse que ele precisava de auxílio. Ele negou. Ela insistiu. Uma nova batalha era agora travada. Olhares lamuriosos foram trocados. A bondade de Ana lhe conferiu a justa condição de superioridade. Sem mais recursos, ele encheu uma das mãos com excrementos e os lançou contra ela. Tomada pelo terror e lágrimas, Ana fugiu sob uma eloqüente saraivada fecal. Saiu do apartamento, batendo com força a porta. Apaixonara-se.
Embriagado e imerso na lama marrom, o homem tinha um aspecto contrito em sua face. Um choro convulso se sobressaiu. As cinco horas se aproximavam. Seu plano seria destruído. O caminho resoluto não seria trilhado. Ana tinha razão. Ana não se especializara na Sorbonne, e, no entanto, tinha razão. Não, não se livraria do intestino. Se fosse realmente se matar, teria que fazê-lo em sua integridade física. E às cinco. Apressou-se. Ergueu-se e, com ambas as mãos, investiu contra o órgão para que ele voltasse ao seu lugar. Aos poucos obteve resultado. Por fim conseguiu. Ou pelo menos achou que tinha conseguido. Sustentara sua crença na dúvida. Lavou-se no boxe, mas um estupor o acometeu. Saiu trôpego em direção a um cômodo do apartamento. A impotência se acentuara. Apoiou-se numa estante de livros, derrubando-a ao seu lado. Decaído, tomou em suas mãos um livro que viera junto. Folheou precipitadamente e parou numa página onde se travava um diálogo:
– Onde é o paraíso?
– O paraíso é aqui.
– E o inferno?
– É aqui para quem não sabe que aqui é o paraíso.
Seus sentidos lhe foram inteiramente roubados. Para as cinco, faltavam dois minutos. Levantou-se e caminhou para a janela. Calculou insensatamente a queda e concluiu que, se saltasse agora, chegaria lá embaixo exatamente às cinco da tarde. Seu plano portanto estaria rematado e sua existência pela primeira vez submetida unicamente a ele. Desta forma, pulou da janela. Uma criança na praça se alegrou com aquele corpo nu que rapidamente se desprendeu no ar. Nenhuma imagem onírica se fez presente porém. Sua ruína foi dura, rigorosa, implacável. Ana, chorosa, aproximou-se. Estivera na portaria aguardando um momento para retornar. Seus cabelos negros e cacheados esvoaçaram. Ele vivia. Não acreditava, mas vivia. Pulara do terceiro andar, uma altura relativamente pequena. Resoluto de suas convicções, ele não acreditou e hesitou fazer a pergunta. Ana tomou sua mão entre as suas e a comprimiu. Enfim perguntou.
– Que horas são?
A jovem elevou o pulso esquerdo e, logo, respondeu:
– 4h59min.
Fracassado, ele dilatou suas pálpebras. Estaria a teoria gravitacional errada? Os cálculos de Newton teriam sido vãos? Seja como for, não lhe restou outro subterfúgio senão constatar que não se podia ter controle sobre tudo. Como não estava num bairro suburbano, uma ambulância rapidamente surgiu na esquina. Dois homens maquinalmente o suspenderam e o embalaram numa maca. Parte de seu intestino pendeu para o lado e o acusou. Irresoluto, ele seguiu sua viagem sob os olhares apaixonados de Ana e o barulho contínuo da sirene. A vergonha o sobrevivia e zombava de sua vida com saborosas baforadas de charuto cubano.
Tô conhecendo esse texto de algum lugar….kkkkkkk!!!! Embora o texto sugira o oposto, noto uma certa retenção…rs! Abraços…
a merda é eterna. o corpo não se vence.
bem… juro que estou tentando passar da parte em que os dedos tocam… tocam… tocam… estou passando mal na verdade, juro que tentarei continuar, assim que passara crise de arrepios e aflição nos dentes…