Sua vida estava arruinada. Jamais teria a tranqüilidade, o sossego, a lucidez. Comera proteína animal. Pior: fora flagrado por seu terapeuta alimentar. Que vergonha. Não lhe restou outra escolha senão sair correndo. Que explicação poderia ter dado para aquela assustadora cara de reprovação? Que confundira a iguaria com uma barra de cereal? Não, decididamente não. Seria inaceitável, absurdo, irracional para alguém que supostamente tem consciência ecológica. Certamente seria expulso do grupo. Muito provavelmente teria eliminada qualquer chance de fazer parte do Greenpeace. Seu terapeuta o vira. Causa e efeito: rejeição, sons de muxoxo, balanços negativos de cabeça e dedos inquisidores de seus camaradas. Tudo por causa de uma simples lasca de carne seca crua exposta no balcão do supermercado. Ora bolas, fora-lhe irresistível. Coma-me, exigia aquela gordurinha branca. Salve-me deste deserto salino e inóspito. É-me insuportável dividir a prateleira com este toucinho ensebado. Salve-me deste vale de tristezas! E pronto, ele já a levava à boca em sua missão heróica. Questão de cinco segundos. Tempo suficiente para ser visto cometendo a heresia.
Trancou-se em seu loft ofegante. Grudado à porta, fixou seus olhos num horizonte inexistente. E agora?, balbuciou. Malditos supermercados varejistas! Como ousavam exibir impunemente pedaços de lombo, paio, bucho, pé de porco e língua de boi? O que imaginavam que seus clientes fossem? Aborígines da pós-modernidade? Veja só a que ponto chegara a selvageria humana: já não bastasse o genocídio mundo afora, agora pedaços salgados de animais incitando o consumo desordenado…
Afinal no que ele pensava quando pôs aquilo na boca?! Tolo. Desperdiçou anos de aprendizado, de ideologia, de luta, de estilo de vida. Desperdiçou sua própria existência. Levou as mãos ao rosto para se esconder do vexame e evitar sua ruína. O suor lhe brotava impaciente. Passou o braço na testa e visualizou sua subida ao cadafalso. Na platéia, o populacho raivoso segurava miudezas de feijoada e mocotó. A corda de enforcamento exalava cheiro de bacon passado. O carrasco trajava uma roupa velha. Ele, uma capa de contrafilé.
Bateram na porta. De volta à sua misericordiosa realidade, ele se afastou trêmulo. Quem poderia ser? Seus camaradas desapontados? Nutricionistas em busca de alto colesterol? Uma legião furiosa de verduras traídas? Instituições de tratamento à gordura localizada? Vendedores de frutas desidratadas? Não, ele não abriria a porta. Não devia ser ninguém afinal. Provavelmente alguma brisa de fim de outono. Respirou aliviado.
Bateram novamente. Três pancadas. Incômodas como três facadas numa picanha que deixava bezerros desmamados. Seja quem fosse, estava efetivamente disposto a entrar. Seja quem fosse, por que não tocava a campainha? Estavam no século XXI no fim das contas. Tenso, ele caminhou lentamente no receio de que seus passos causassem um terremoto. Subitamente caiu em si. Seus temores talvez fossem infundados. Quanta bobagem sua mente fértil se dispunha a criar. Riu. Era só dizer ao vendedor que não estava interessado e pronto. Tinha boca para isso também. Pôs a mão sobre a maçaneta de metal embaçado e a girou. Abriu a porta e suas últimas certezas se revelaram totalmente ilusórias. Seu terapeuta alimentar o enfrentava impávido e saudável. Vinha de uma aula de pilates seguida por um almoço rico em fibras.
Não! Não havia mais escapatória. Seu veredicto seria pronunciado ali naquele momento a despeito de sua vontade e sem qualquer chance a um último pedido. Talvez fosse justo, embora ele não estivesse pronto. Talvez fosse necessário, embora ele não concordasse. Noves fora, que criminoso consideraria aceitável a sua sentença? Lembrou-se de seu passado decadente, de sua irresponsabilidade gastronômica, de seu desleixo com as leguminosas e abuso de carboidratos, de suas funções gástricas atormentadas. Até que aquele obscuro e rígido grupo de vegetarianos o salvara. Na adoração de alfaces, acelgas e agriões, ele encontrara a felicidade. Na visita a um maldito supermercado popular, ele comprara sua desgraça. Oh, mundo cruel. Só faltava o SBT exibir sua história.
O terapeuta entrou e se sentou numa poltrona. Uma luminosidade outrora ausente invadiu o aposento, dando-lhe um aspecto insuportavelmente asséptico. Certamente equilíbrio de vitamina B12 e Cálcio.
– O grupo está muito desapontado, Gerald — disse o terapeuta cruzando as pernas. — Você sabe que um erro dessa magnitude tem efeito devastador e põe em dúvida todo nosso aparato ideológico. Você deve ser punido, Gerald.
Gerald estava disposto a interceder, mas o espaço lhe foi roubado pela crueza típica dos algozes e componentes clorofilados.
– Beije meus pés.
A incompreensão transbordou seu entendimento. Sim, eram pés limpos, mas não deixavam de ter unhas, sinuosidades e dez dedos. Fechou a porta atrás de si e seguiu na direção de seu terapeuta. Uma sonata em dó maior soava ao longe sob a regência de algum maestro esquizofrênico. Não era o pior destino que alguém poderia ter.
– Você trouxe a lasca de carne seca? — perguntou o terapeuta salivante enquanto Gerald se ajoelhava.
A sonata em dó maior deu lugar a uma inquieta sinfonia. O ambiente foi tomado pela nebulosidade. Gerald sorriu maliciosamente, sacou de seu bolso um pé de porco grudado em dois torresmos e finalizou:
– Melhor do que isso?
ler isso é ótimo.
a trilha desse texto é do linkin park.
e o terapeuta é a rita lee.
o bom e velho william oliveira. bom te ler de novo. (;
**;
não era o pior destino
dá pra fazer tudo em versão rapidinhas?
Você tem notícias de um tal de Luís Henrique Garcia?
Não me importo se responder por aqui mesmo.
Risos. Quem é você, Olga? E como veio para essas paragens? Não queira perder tempo com isso… Bem, quanto à sua pergunta, eis aí um assunto sigiloso. Mande-me email: oliveira2106@gmail.com
Veremos o que pode ser feito.
Coitada da Olga.