para Ana Alencar
– Pois não?
– Me vê um quilo e meio de Baudelaire e dois de Cony, por favor?
Afastando-se do balcão, o funcionário diz:
– Já sabe da promoção de hoje, dona? Levando meio quilo de Guimarães Rosa, grátis duzentos gramas de Proust.
– Ah, é? Parece tentador, mas as crianças não gostam e é provável que estrague… Talvez outros fregueses se interessem, obrigada.
– Tá legal, confirmando então: um e meio de Baudelaire… — checando na balança. — Pode ser um e seiscentos?
– Tire algumas metrificações, por favor. Isso… Está bom.
– E dois quilos de Cony, madame?
Ela confirma com um aceno.
– Um novecentos e cinqüenta. Posso ensacar?
– Sim, é o bastante.
Ele ensaca a mercadoria e a entrega. Tomando o pacote com as mãos, ela diz hesitante:
– Estive pensando… acho que vou querer levar a promoção de hoje sim. Se as crianças não quiserem, a empregada leva pra casa. Mas será que dá pra ser Guimarães Rosa sem muito neologismo e Proust com uma fina capa de vírgula?
– A senhora quem manda!
– Mas escuta: não está fora da validade, está?
Visivelmente ofendido, o funcionário decreta:
– Nunca!
– Acho bom, porque já me venderam Bukowski com gosto de Caninha da Roça. Não que eu costume beber, mas foi no mínimo desagradável… Imagine que eu estava prestes a receber meus sogros em casa, e eles são membros de uma seita evangélica por demais conservadora. Tive que ir às pressas ao mercadinho da esquina e me virar com setecentos gramas de Álvares de Azevedo — pondo a mão sobre o seio esquerdo: — Um horror! Mas eles adoraram, sentimentais como são…
– Aqui está — dando-lhe o pacote. — Algo mais?
– Não, chega! O senhor quer que eu engorde?
– Mal não faria… — provocou uma menina na fila.
– Mas o que é isso? — fez a mulher, surpresa. — Crônica de Rubem Braga?
– Pior — respondeu o funcionário, lacônico na medida certa.
– Bem, mas eu não tenho tempo pra isso — disse resoluta. — Preciso preparar essas coisas todas ainda hoje. Além do mais, esqueci de tirar André Gide do congelador.
– Mas não tem quem a ajude? — perguntou um faxineiro.
– Geralmente esta é uma tarefa solitária — suspirou. — E minha empregada tem andado um tanto pessimista depois de Sartre.
– Pobrezinha… — lamentou a menina na fila. — Tente três colheres de sopa de Veríssimo. Quem sabe ela não melhora?
Sentindo-se irremediavelmente sufocada e confusa, a mulher tentou concluir:
– Pode ser.
Saiu da fila rumo ao caixa num vagaroso e reflexivo andar. Lá fora o sol se erguia e consigo carregava o dia. Cá dentro, ela — pela primeira vez — pensava na possibilidade de fazer poesia. Limitada sempre a fronteiras estéticas e retida em enredos alheios, ela jamais ousara ou flertara com a idéia. Talvez fosse a hora de colocar pimenta na comida envenenada. Talvez fosse a hora do fiat lux, ou, para os desconhecedores de latim, do faça-se a luz.
Dirigiu-se à fila de gestantes e idosos — apesar de não pertencer mais à primeira categoria e ainda vir a ser da segunda –, pagou a quantia rapidamente, indiferente à oferta anunciada no microfone do popular Cristóvão Tezza, e seguiu para o estacionamento. Tinha pressa. Entrou no carro, confundiu embreagem com freio, mas enfim deu a partida. Quinze minutos de uma angustiante, perturbada e produtiva viagem até chegar à sua casa. Jogou as sacolas com todos aqueles literatos no chão da cozinha e se sentou na frente do computador. A refeição do dia teria que esperar. Respirou fundo e, triunfante, declamou:
– Escrever é uma maneira de não ler. E vingar-se por ter lido tanto.
Deu-se por conta, porém, que essa não era uma frase originariamente sua. Tampouco hereditariamente de William Oliveira. Era de Schopenhauer.
Aflita, ela então subitamente se perguntou:
– Quem é William Oliveira?
ai-ai-ai… eu te amo, will. rs
ô will, sabe o que isso me lembra? das noites em que boto no pé meu salto agulha carregado em lévis-strauss e encho a cara de merleau-ponty safra safada de 60 e ainda tento andar direito…