– Você aceita? — ele perguntou com aquele típico olhar, segurando uma pequena caixa da H. Stern.
– Oh, meu Deus! — ela respondeu com aquele típico sorriso, segurando parte de sua dissertação de mestrado.
Conheceram-se na graduação. Debateram o conceito platônico do cristianismo e iniciaram um namoro. Crises existenciais, discordâncias epistemológicas e o movimento hippie não foram capazes de separá-los. Agora, ele propunha um casamento. O anel, ainda não quitado, reluzia naquela tarde de outono neoliberal.
– Não sei, talvez seja prematuro demais, ela ponderou. — Além disso, pra que casarmos se você é estéril?
– Lá vem você de novo com esse papo… — queixou-se. — Será que não dá pra abandonar esse determinismo biológico de uma vez por todas?
– Do que você está falando?
– De você querer ser mãe a todo custo, de querer reproduzir mecanicamente o que a natureza designa a todos sem exceção: a perpetuação da espécie humana.
– Diga o que quiser, meu bem — levantou-se. — Seu aparato de tolices chamuscado de um verniz racional jamais será o bastante para minha quantidade de estrogênio.
– Mas você não me ama? — suplicou.
– O que é o amor?
– Não importa! — bradou. — Case comigo.
– Olha aqui — retomou decidida. — Se você quer fazer uma cena, sugiro que leia antes algum romance de banca de jornal e mude também o lugar das vírgulas.
– Cínica! — ele gritou, seus olhos já embotados traduziam seu desespero.
– Por que tanto desespero, meu bem? — perguntou, insuportavelmente serena. — Apenas devolva o anel ao joalheiro e venha me ajudar no meu mestrado.
Ele, no entanto, lançou a caixinha do anel ao chão e disse:
– Nietzsche tinha razão: devemos sempre levá-las no açoite…
– Tente — desafiou.
– Eu não. Pra depois você vir me dizer que meu estruturalismo não é páreo para a sua semiologia…
– E não é mesmo — zombou, fazendo um gesto com o polegar e o indicador numa alusão ao tamanho insignificante de algo.
– Ah, é? — ele estufou o peito desafiador. — Pois você vai ver! Defenderei minha dissertação no mesmo dia que você, e ela será exatamente aquilo que você mais teme: uma desconstrução!
Soar de trombetas, rufar de tambores, feridas de violino. O terror lhe invadiu a alma. Subitamente, ela se viu numa enrascada da qual seria impossível escapar. A não ser que…
– Espere! — chamou.
Ele ouviu mas bateu a porta e desceu a escada. Estava assegurado o suspense e o controle sobre ela. Talvez o açoite a que Zaratustra se referira. Angustiada e ciente da sua futura ruína perante a academia, ela rapidamente tratou de arquitetar um plano sobre o qual até mesmo Umberto Eco perderia algumas horas meditando.
Correu ao quarto, abriu o guarda-roupa e pegou uma almofada. Deu duas ou três sacudidas nela e a pôs sob o vestido na altura do ventre. Riu vitoriosa: estava grávida. Como ele faltara às aulas de figuras de linguagem e gêneros literários, jamais suspeitaria que ali se desenrolava uma farsa apoiada numa retórica de metáforas. Palavras estas, aliás, que ela considerou um tanto difíceis de se pronunciar mas que sempre impressionavam seus alunos estúpidos. Sua dignidade diante da academia estava assegurada. Sua aprovação se daria com o devido louvor.
Um quarto de hora depois, ele voltou com alguns papéis debaixo do braço. Prováveis anotações que se somariam à sua vingança contra a insaciável e amada mulher. Fechou a porta e, ao se virar, deparou-se com ela. Imaculada, fascinante, sofisticada. E com algum inchaço na região abdominal.
– Estou grávida — anunciou solenemente. — Case comigo.
– Aahh! — ele vibrou, pegando-a nos braços e girando-a no ar com aquela costumeira pieguice.
A licença poética permitiu que o tempo passasse rápido e o bebê logo nascia. Duas ou três linhas significaram nove meses, e as dores do parto duraram nada mais do que o tempo que se leva para ler “dores do parto”. Na sala de operações, a enfermeira gritou:
– É uma menina!
Enquanto tentava segurá-la com relativa dificuldade.
– Nossa, mas é tão escorregadia, fluida, confusa… — e disfarçou em seguida com um “que bonitinha”, fazendo o costumeiro e fingido biquinho.
– Qual será o nome dela? — indagou um anestesista.
Orgulhoso, o suposto pai respondeu num sorriso maldoso que só os acadêmicos sabem fazer:
– Pós-modernidade.
hahahahahah