Sejamos práticos afinal. Já está mais do que evidente que qualquer discussão que possamos vir a ter daqui pra frente será apenas mais uma a se somar às tantas outras inúteis que viemos travando desde fevereiro. Esta é portanto minha última mensagem a você. Pelo menos enquanto eu julgo estar lúcido. Tudo o mais que acontecer diferente disso será fruto de uma implacável insanidade.
Há sempre um preço a se pagar por nossas escolhas, e o que estou pagando agora é ter que terminar com você na tentativa de eliminar de uma vez por todas qualquer resquício de doença que resta em mim. O preço que você paga, por outro lado, é ver em mim o esvaziamente paulatino de qualquer sentimento nobre outrora direcionado a você. Há um fator claro responsável por todo esse estágio a que chegamos e você aparentemente foi incapaz de enxergá-lo depois de todos esses meses e meus gritos desesperados: Jonas Tranchesi. Reclame, esperneie, argumente, mas estou irredutível nessa posição — e a dor emocional que sinto é a maior prova disto.
Pouco importa que eu esteja olhando tudo com lente de aumento. Desde que essa história veio à tona eu deixei escancarado a você que essa sua relação com esse cara me deixava deveras transtornado e incomodado. Terei que expor tudo de novo o que senti? Sim, meu mundo cor de rosa desabou, senti-me um nada, completamente sem referências, e na iminência tremenda de fracasso. Em suma, virei um doente insuportável e vergonhoso. Uma espécie de indignidade aliada à desonra insistem até hoje em me estraçalhar. Não sei mais o que sou, o que vou ser e tampouco o que fui. Você –por outro lado — tomou suas decisões, e é bom saber que ninguém faz isso impunemente: tentou aparentemente me fazer crer em suas “verdades”, dizendo que ele nada significava na sua vida, e por aí vai. Só que a cada referência a ele, a cada conversa virtual, a cada ida juntos pro trabalho, você me fazia resgatar toda aquela sensação de fracasso e niilismo que eu senti quando descobri sua “recaída” por ele. Tudo voltava: seus insistentes e estúpidos esforços de se mostar a ele como uma pessoa interessante (e interessada), suas omissões à minha existência em sua vida, e a tão famigerada ida ao Ibirapuera ao encontro dele — e eu ainda ao seu lado.
Tudo isso e muito mais não se apaga assim da noite pro dia, Hélio. E você sabia disso, estava evidente. Eu deixei de comer, meu sofrimento e definhamento se deu a olhos vistos. E, no entanto, sua decisão foi continuar mantendo uma relação com esse cara. Mesmo que você jurasse de pés juntos que uma relação unicamente amigável, jamais foi o bastante. Porque outras coisas estavam em jogo ali; não era apenas eu quem morria aos poucos, mas consequentemente nossa própria relação e o que sinto por você. Ter memória nessas horas é a pior capacidade humana a se considerar.
A todo momento esteve claro que urgia entre nós um senso de prioridade, de que eu estava machucado e a cicatrização não seria nada fácil. Apesar de todas as minhas sinalizações, você não se esforçou nem um pouco. Ou melhor, se esforçou sim: falando mal dele, chamando-o de burro, tentando me fazer acreditar naquilo que eu precisava. Só que nunca era o bastante; sou exigente demais, e havia perdido o mais importante: a confiança em mim mesmo. E nunca a encontrava a cada vez que invadia vergonhosamente suas coisas e constatava exatamente o contrário: que esse Jonas continuava a ter uma presença em sua vida. E eis que tudo voltava: meu desespero recorrente, minha morbidez fracassomaníaca, minha derrota em não ser mais aquele que lhe bastava. A mim pouco importa que ele tenha lhe dado conselhos pra você continuar comigo naqueles tempos cabeludos; essa era uma decisão que você deveria ter tomado sozinho, e não com o auxílio daquele que contribuiu decisivamente para esse buraco. E não estou atribuindo unicamente a ele a responsabilidade, atribuo a você por ter agido de lá até aqui de maneira tão torta. Sabendo que isso tudo me magoava, continuava mesmo assim a ter qualquer coisa com ele. Não era pra ter nada. Quem devia ser priorizado era eu em meu egoísmo mesquinho. Em vez disso, você continuou e pior: tanto sabia que sua atitude era um “equívoco”, que tentava apagar qualquer registro de conversa entre vocês dois. Inevitável não imaginar que você fosse um “duas caras”… A mim me dizia algo, e pra ele dava a impressão de importância e intimidade em sua vida. Você criou esta situação e certamente a considera a coisa mais absurda do mundo. Não a consideraria se tivesse passado (e estivesse passando) pelo que passei. Eu certamente fui e sou egoísta em toda essa história. Foi um direito que me coube. Afinal, numa relação é inevitável a contigência da limitação e da concessão. Tente se pôr em meu lugar que tudo fica mais fácil. Imagine-me balançado por um cara (tanto emocional quanto sexualmente), e depois de ter ferido você profundamente, enredando uma teia de contradições e ainda fazendo desse cara um amiguinho no final da história. Duvido que você saísse incólume desta. Aliás, pra ele já ter tamanha liberdade de achar que seu pau fica duro com o corte de cabelo dele, é de se pensar mesmo que essa “amizade” vai longe. Você podia ter essas coisas, essas piadas, enfim, com qualquer outra pessoa, Hélio, mas não com ele. O mínimo que você podia ter feito por mim era ter evitado qualquer tipo de atividade com ele depois de tudo por que passamos. Mas se você aparentemente saiu ileso desta, se preferiu fazer a pior escolha em detrimento de mim, este é nosso fim.
Ah, você agora não precisa mais invejar a vida dele de solteiro (como fez questão de dizer no sábado pelo msn); pode aliás, se permitir a dar voltas com ele, ir ao teatro, e ter a sua tão querida amizade de um “cara boçal” (palavras suas) mas a quem surpreendentemente você preferiu priorizar. Se o peso do nosso fim lhe permitirá continuar qualquer história com ele, aí já é outro assunto e pode dizer muito sobre o tipo de pessoa que você é, e das coisas que diz. Para você afinal o que sai da sua boca e cai nos ouvidos de alguém pode não necessariamente corresponder à verdade, mas — olha que estranho! — isso faz com que os outros acreditem, e isso é o que mais importa.
Tudo teria sido de outra forma se ao final da tormenta (lá em fevereiro) você fosse coerente. A escolha foi sua, e a escolha consequente minha é sair desta para não me machucar mais. Não confio em mais nada, e estou tremendamente revoltado com nossa história. Revoltado com a ironia de você sempre ter dito que eu o largaria assim que entrasse na usp, e no entanto foram seus deslumbramentos e sua faculdade quem me fizeram largá-lo. Aliás, depois desta, ao menos uma cobertura em Higienópolis ela há de lhe trazer. Se é uma troca justa? Bem, depende do lado que se olha. Furtarei-me de falar com você a partir de agora. Não saio de casa pelas razões expostas outrora. Não tendo mais qualquer vínculo oficial com você, livro-me de tentar acreditar em qualquer coisa a nosso respeito e futuro. E melhor: livro-me de querer fiscalizar tudo doentiamente. Qualquer ilusão, aliás, que eu pudesse ter a respeito de nós dois se esvaziou; você não vai me trazer a imortalidade, a glória, sequer um sorriso legítimo. Cansei de viver lhe contando todas as minhas insatisfações pra você depois tentar se adaptar a elas inutilmente. Você me fez viver sob o signo da deconfiança, do terror, da doença dependente e do iminente abandono. Um engodo. E eu muito provavelmente fui a pessoa mais interessante e estimulante a aparecer em sua vida. A que mais contribuiu para seu desenvolvimento intelectual, e no final aparentemente percebi que tudo isso não foi o bastante. Talvez, no final, tudo o que conte mesmo seja fazer exercícios de auto-estima, ver até onde uma história pode ir, até onde uma cantada ou um comentário pode nos levar. Burro fui eu em acreditar em seja lá o que for. Nem em mim mais acredito, e isso já não é problema seu.
Em tempo: diga o que quiser, mas só porque eu não correspondi ao seu modelo perfeito de comportamento no último sábado, isso faz dele um dia horrível a ponto de você invejar a solteirice? Pois é, isso também parece dizer muito a seu respeito… E outra: já tenho sofrido demais com essa bagunça toda e não quero mais um problema físico pra mim. Continuarei dormindo na cama. Como meu próximo passo a ser almejado é a indiferença, não me importo se lá você dormir também. Apesar da minha raiva e decepção, não quero produzir uma lordose em terceiros.
Comédia involuntária
Janeiro 24, 2008 por William Oliveira