Pegue um mapa e teste seus conhecimentos de história, pois tudo sempre começa antes de nós. Eu nasci em uma cidade próxima àquela que já foi o fim do mundo, no tratado de Tordesilhas, depois foi República Juliana, e agora é só um balneário. Minha cidade natal tem o mesmo nome dos vilões de “O velho e o mar”. Mas saí de lá tem algum tempo. Fui para o norte deste Estado, morei na cidade que foi dote de princesa portuguesa feia a um príncipe francês apalermado. Seu orgulho atual é ser sede da única filial do Balé Bolshoi no mundo, e ter o Domenico de Masi a dizer que ali todos entenderam como deve ser uma sociedade pós-industrial (é uma cidade de colonização germânica, então eles acreditam facilmente em tudo, não sabem até onde vai a velhacaria de um italiano).
E também não moro mais lá; subi a serra, como se diz por aqui, e agora moro em uma cidade que por pouco escapou do Contestado, nossa Canudos. Aqui todos adoram pensar que por causa da colonização são ainda alemães e uma vez por ano surtam coletivamente. É quando os homens desfilam de bermudas com suspensório bordado, e as mulheres com flores de plástico na cabeça. Depois se embebedam no clube mais tradicional, e cumprem em casa sua orgia, porque orgia aqui só funciona se for um dever (não deve ser por acaso que o nome da festa em alemão é “festa da matança”). Aqui tem retreta no verão, velhos e novos nazistas e uma ou outra pessoa normal (como eu). Não tem cinema, não tem teatro, na vídeo-locadora só tem filme que foi sucesso de público, e quando aparece um fracasso a moça me diz: “detestei um filme aí, acho que desse você vai gostar”. Sabe, ela é muito bonita, pessoas com grande auto-estima são sempre assim simples, e eu gosto.
A única livraria da cidade é uma indecência, sua dignidade está em ter uma proprietária louca, que por sinal gosta muito de mim. Esses tempos eu encomendei uns livros do Borges (é, eu gosto do gênero, fazer o quê?) e ela cismou que eram livros de Direito por causa do meu curso (eu já estou antecipando algumas coisas) e porque o Juiz do Trabalho, por coincidência, havia encomendado também. Se fosse só isso: o cara comentou que eu devia ser uma de seus colegas da Sociedade Teosófica! Ah, eu já ia esquecendo: tem também uma tal de Sociedade Literária. Na verdade, é uma espécie de biblioteca (todos os seus membros doam seu acervo quando morrem). Só entrei lá uma vez, primeiro por que o velhinho que toma conta — ele é o Presidente — me fez questão de mostrar os livros escritos em alemão, e como de alemão eu só sei meu sobrenome, ele ficou lamentando o que o Getúlio fez. Segundo porque na hora de ir de embora não soltava da minha mão e eu percebi que se tratava de um velho tarado. E eu tenho medo de velho tarado, você não tem não? Saí com uma edição velhérrima de “Casa Grande e Senzala”, deixei vinte reais com a velhinha da tesouraria, dizendo que queria antecipar algumas mensalidades, não voltei nem vou voltar. Às vezes eu tenho que passar em frente, o velhinho está lá na porta e eu atravesso a rua, virando a cara para as vitrines. A minha sorte é que ele vai morrer antes de mim, Deus às vezes é sábio.
O que mais? Aqui faz sempre frio, se não é de dia é de noite, e agora mesmo estou usando uma blusa de lã. Acho que é só. Claro, você já deve ter percebido: a cidade é pequena, todo mundo se conhece e se detesta etc. Este é o meu contexto. Sobre o que estudo, eu já disse. É Direito. Eu tinha quase certeza que com aquele papo de pedagogia do Freire, algumas literatices, uma salada de morfologia e mais algum gosto musical duvidoso, você me enquadraria entre as meninas que fazem letras. Você é muito inteligente, William, mas sofre de ingenuidade. E tem um gosto tão apurado, que não deve ter lido muito romance policial para saber que as pistas que se deixam são sempre falsas.
Desculpe, eu não quis agredi-lo, eu também só quero rir um pouquinho. Revido por você: eu também catalogo as pessoas. Só não tenho qualquer pretensão literária, se quer saber. A única ambição artística que tive um dia foi o de fazer artes plásticas. Não que eu tivesse talento, mas desejava muito poder levar uma vida inteira tentando pintar uma só tela bonita. Uma vida inteira para tentar, era só isso. Mas não era sensato, salvo se eu fizesse um outro curso e só pintasse para decorar minha casa quando casasse. Negociei com o mundo (eu gosto mais: negaciei), aceitando estudar outra coisa, mas destruindo todo meu material e tudo o quanto já havia tentado. Não fiz birra de menina mimada, externamente foi tudo muito pacífico. Mas pintar para ser uma esposa prendada, nem pensar. Prefiro mandar tudo pro inferno, quando morrer pintar um auto retrato ao lado do capeta e, se antes disso eu enlouquecer, que fique tudo exposto no Museu do Inconsciente da dra. Nise. Não abro um livro de arte, não entro em nenhuma galeria, não quero mais. Sofro muito quando vejo os que conseguiram e acho um insulto tanta gente se apresentar pronta quando nem tentar eu pude. Claro que tive depressão por causa disso, mas nem o Prozac me fez acreditar naquela porcaria de psiquiatra que me disse que eu estava com pena de mim. Dei alta pro cara, coitado, ele não sabe o que é uma decisão (ir) resoluta, como você diz, e me conhecia muito pouco para entender que sei me cuidar sozinha.
Este foi meu texto. Você pediu para travarmos um diálogo sadio, William, mas na verdade, se isso continuar, serão sempre monólogos que se intercalam, e isto intrinsecamente é patológico. Não consigo ainda lhe dizer o meu nome, ser mais concreta. Sei que você deve achar pouco, mas acredite, o tanto que já lhe dei, para mim, foi muito. Reservar-me o direito ao anonimato não é pedir demais, é? Pode me chamar de mocinha, se quiser. Pra ser franca, eu gostei.
Obrigada.