Cledisquélson foi o primeiro morador daquela comunidade carente a passar no vestibular. Curso de psicologia, cinco anos. Tempo demais!, disseram alguns. Você é doido!, disseram outros. Não importava, seus planos estavam na ponta do lápis: comprar um terreno baldio nas redondezas e ali erguer um consultório para atendimento comunitário. A despeito da vala de esgoto que ao lado passasse.
Para comemorar, um churrasco com pagode ao vivo foi armado pelos vizinhos orgulhosos. A conquista fora unicamente individual, mas, pelo bem de todos, Cledisquélson decidiu entrar no clima coletivo. Mais tarde, quando lesse Wilhelm Reich, compreenderia a dinâmica social e daria boas risadas daquilo. O pandeiro, o rebolado de mulatas e pequenos copos de cerveja já sacolejavam. Faltava só a carne para requebrar sobre a brasa, mas provavelmente ela ainda não fora convidada. Questão de tempo. Logo surgiriam algumas capas de contra-filé e picanha de procedência questionável. Sal grosso por cima e molho à campanha, é claro.
Estivéssemos no século XIX, Aluisio Azevedo teria dito que se sentia naquela fermentação sangüínea, naquela aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas, nada mais do que o saboroso prazer animal de existir, a triunfante satisfação de respirar sobre a lama preta que ali era feita de terra. Pós-moderno e graduando de uma universidade federal, Cledisquélson optou por Eros, pela busca do prazer a qualquer preço e algo tido como cultura do narcisismo. O trivial enfeitado de erudito. Ainda sem carteirinha do conselho regional de psicologia, levantou quatro paredes no fundo do quintal e, sobre elas, jogou um punhado de telhas. Pensou em batizar o recinto de Puxadinho psicanalítico, mas temeu que ficasse estereotipado demais. Abraçou seus pais, os sete irmãos e aguardou pelos pacientes. Considerou sadia a sua família, apesar da obsessão do irmão de onze anos pelos seios de sua mãe, e da irmã de catorze pela colher de pedreiro de seu pai.
Enfim alguém na porta bateu. Uma mulher. Quarenta e nove anos. Branca. Esposa do pastor de uma das igrejas evangélicas ali existentes. Nervosa, fora escondida. Dos vizinhos e de Deus, que agora certamente se divertia em alguma sessão de descarrego. Aceitou a água que lhe foi oferecida e se sentou. Começou a falar. Apesar de todos os aspectos informais e incomuns daquela situação, Cledisquélson limitou o tempo a 50 minutos. Prezava pela seriedade profissional. Além de que, precisaria arranjar lenços de papel que ficassem à disposição das lamúrias existenciais. Com espaço insuficiente para o cabimento daquela narrativa, ele decretou:
– Seu problema não é com Deus, dona Jandira, mas com seu superego. Vá para casa e descanse. Continuamos amanhã de manhã.
Falou e disse. Diante de um tão seguro e elaborado discurso, não lhe restou outra escapatória senão obedecê-lo. Decididamente, era tudo o que dona Jandira precisava ouvir. Secou as lágrimas num pano encardido e se foi. Ainda escondida. Na próxima sessão, isso também seria trabalhado.
Três quartos de hora depois, batia em sua porta Adryanna. Aos berros, desabou sobre a cadeira e começou. Na noite anterior, flagrara seu namorado se esfregando em Vivyanne no baile funk. Com o orgulho ferido, pensava em engravidar como forma de vingança. Pronunciou alguns palavrões até ser interrompida.
– Acalme-se, este seu nervosismo não passa de uma clássica inveja do pênis. Se estiver livre amanhã à tarde, volte aqui.
Como não derramara uma gota de lágrima, economia de lenços de papel. Foi, portanto, conduzida até a porta, sentindo-se aliviada com o diagnóstico. Faminto, Cledisquélson pediria à sua mãe que lhe preparasse uma dobradinha. Sua empreitada estava sendo um sucesso. Não era difícil, no fim das contas, eliminar a angústia da população de baixa renda. Maria Rita Kehl e Luiz Alberto Py morreriam de inveja.
– Mãe! — gritou. — Faz pra mim um…
Teria completado o pedido se subitamente o dono da boca de fumo não tivesse entrado pela janela.
– Já é! Já é! — titubeou, prendendo o revólver no cós da bermuda.
A dobradinha teria que ficar para depois. Faltava-lhe coragem para mandá-lo embora impunemente. Sobrava-lhe ética para não recusá-lo deliberadamente. Ofereceu a cadeira como assento, mas Ratão repudiou. Ofegante, fugia de uns PM’s interessados numa palestra amigável. Não estava disposto a tomar mais um prejú naquela semana. A janela vinha portanto a calhar: livrava-o do perigo iminente e acenava para a discussão de suas inquietações ontológicas. Cledisquélson escutou.
Havia o boato de que Tatu, dono da boca de fumo inimiga, invadiria sua área com o apoio da polícia. Não podia ser conversa fiada. A molecada do campinho confirmava com acenos de cabeça. Se a profecia se confirmasse, Ratão estaria arruinado. Tatu teria ao seu dispor um espaço cinco vezes maior para o tráfico, e Ratão o local de desova mais próximo dali. Perguntou o que deveria fazer.
– Nada — respondeu Cledisquélson secamente. — Volte na próxima semana para analisarmos mais profundamente este seu medo da castração.
Ratão poderia ter argumentado que na próxima semana estaria com a boca cheia de formiga, mas acatou categoricamente a decisão. Estava afinal lidando com um sangue bom. Deixou cinco gramas de pó sobre a mesa e saiu. Cortesia.
Na sala de aula, Cledisquélson aprendeu o que era transferência. Ficou deslumbrado. Descobriu que seu poder ia muito além de ser um mero ouvinte. Tinha uma tremenda responsabilidade sobre seus ombros. Leu ainda que Freud usara cocaína em alguns pacientes, tendo resultados compensadores. Lembrou-se da trouxinha que Ratão lhe deixara e correu para casa. Dona Jandira estaria à sua espera.
Entrou sofregamente ignorando a sugestão de sua mãe para experimentar o angu que jazia sobre o fogão. Chegou à alcova e ninguém estava lá. Teria dona Jandira desmarcado a consulta?
– Sim — respondia sua mãe. — Disse que tá tudo bem, que não precisa mais.
– O quê?! — surpreendeu-se Cledisquélson. — Mas ela está com problemas no superego!
– Exatamente — rebateu a mãe.
Não entendeu a resposta materna. Limitou-se a passar em revista os momentos da consulta na tentativa de descobrir algum erro.
– Ah — foi interrompido. — Adryanna e Ratão também disseram o mesmo.
– Não pode ser — desesperou-se. — Ambos estão envolvidos em complicações seríssimas…
– Pois é, meu filho! — repreendeu.
Cledisquélson chorou. Copiosamente. Fabulosamente. Cometera um grande erro: entregara de bandeja o nome da enfermidade para o doente. Agora que eles já sabiam, viveriam encerrados naquele vocabulário até o fim de suas vidas. Dona Jandira não mais se apoquentava – saberia conviver com seu superego atormentado. Adryanna, enquanto lavava suas roupas, aproveitaria para incrementar o rap do pênis invejado que em breve estaria nas paradas musicais. Ratão, ainda com uma boca saudável e companheiro de seu medo da castração, investiria na conquista de Vivyanne e mais algumas minas da vizinhança. A vida seguiria seu rumo sem grandes transtornos ou tentativas de suicídio. Em outras palavras, sem as frescuras da nossa desequilibrada elite brasileira.
Talvez a análise não passasse de uma tentativa de curar a angústia superficial para se apresentar a angústia das profundezas. Noves fora, se Freud não estava enganado, a população de baixa renda é que não estava. Cledisquélson, contaminado, não suportou a lógica e foi internado à revelia. Os moradores comentaram o episódio apenas naquela tarde e nunca mais. Sua mãe não esboçou a menor crise existencial. Tinha mais sete para criar afinal.