O ferro-velho ficava na entrada da favela e ao lado da linha do trem. Uma invasão bem-sucedida e promissora. Vinte centavos o quilo do papelão, vinte e cinco o do ferro, dois reais o do alumínio e seis o do cobre. Nenhuma concorrência desleal e tampouco cobrança de impostos. Um paraíso fiscal sobre o qual qualquer economista gostaria de se debruçar e construir gráficos mirabolantes. As estimativas apontavam para caçambas retiradas semanalmente e logo a abertura de uma filial. O proprietário, sempre sorridente, traduzia a imagem perfeita de profissional empreendedor da revista Forbes. Teria sido reportagem de capa se usasse ternos engomados e camisas de Ricardo Almeida. Seus farrapos encardidos porém só causavam sensação entre a população local, fiel depositária de suas moedas e promessas.
Em breve a cotação da sucata sofreria um reajuste e todos se animavam com o prognóstico. Seria possível aos miseráveis ali residentes ampliar talvez a cesta básica e ainda garantir uma Caninha da Roça ao entardecer. Quem tivesse síndrome de Jonas que saísse dali imediatamente. Dizer que tudo estava bem era uma asneira; tudo estava ótimo e não havia porque ser de outra forma. Valas a céu aberto, amontoados de lixo, porcos e alguns galináceos ilustravam a razão daquele lugar que se bastava. Os dias perdurariam resplandecentes, a abóbora seria o complemento do jantar e o Velho Barreiro o aperitivo etílico. A perfeição jamais sofreria qualquer tipo de incômodo ou desbunde.
Até o dia em que descobrissem a verdade sobre o proprietário do ferro-velho; até o dia em que os favelados desmascarassem a mentira que os embalava candidamente em banho-maria naquilo que se podia ter como o melhor dos mundos. Lima Costa era uma fraude. Uma fraude construída à custa da grosseria e generosidade da população de baixa renda. Não era nenhum retirante nordestino, um bóia-frio fugitivo ou tampouco um vitorioso das vicissitudes sociais. Não passava, na verdade, de um professor de Literatura Comparada expulso da faculdade por infidelidade acadêmica e agora com o nome sujo nas notas de rodapé. Sua carreira criminosa percorria desde chantagens epistemológicas à negociação de citações de teóricos obscuros. Extorquiu seus orientandos, formou um gordo pé de meia, mas logo teve toda a quantia receptada pela receita federal através de denúncias da cátedra. Arruinado e prestes a ser preso, fugiu para aquela comunidade carente onde construiu nova vida e carreira. Criou um pseudônimo, fabulou toda uma tragédia e alegoria, e rapidamente conquistou a simpatia popular. Tornou-se um rei da sucata que lia Heidegger e Dante às escondidas enquanto simbolizava para aqueles desafortunados a possibilidade de vencer na vida honestamente.
O vai e vem sufocante, a aglomeração tumultuosa e o pinga-pinga incessante de níqueis rapidamente despertaram o interesse da boca de fume, que propôs uma parceria. A fachada era perfeita, a localização privilegiada e os lucros elevadíssimos. Lima Costa se comprometeu a avaliar a proposta. Temeu por sua cabeça caso recusasse. O bonde se tornava cruel quando contrariado — além de escrever e falar muito mal. No dia seguinte, chamou o aviãozinho e pediu para marcar uma conversa vis-à-vis com o chefe do tráfico. Só foi compreendido alguns minutos depois, quando usou o termo “pessoalmente”. Eliminava aos poucos os vícios de uma erudição outrora celebrada.
O moleque se foi e não mais voltou. A bala comeu naquela manhã nublada e a conversa foi cancelada. Saldo positivo para a polícia e baixa para a criminalidade. Os moradores exibiram indisfarçada revolta; Lima Costa, um silencioso alívio. Graças à truculenta política de segurança pública, seu monopólio se mantinha firme e forte. Pelo menos por enquanto.
Afinal era o momento ideal para abrir sua filial do outro lado da favela. O comércio estava fechado pela morte dos traficantes, a população local exibia novamente sua falta de criatividade em queimar pneus nas vias públicas, e ele aproveitou para analisar um terreno. Chamou alguns catadores de papelão sem eira nem beira para auxiliá-lo e prometeu umas esmolas em seguida. Tentou, por força do hábito, discutir a lírica trovadoresca, mas logo se lembrou de que estava num subúrbio violento, bêbado e drogado. Procurou se acalmar. Mais cinco toneladas de sucata vendida, e logo estaria em Paris às margens do Sena lendo Baudelaire impunemente. Acompanhado por uma taça de Romanèe-Conti. Exultante, ouviu as considerações favoráveis dos catadores sobre o terreno e decidiu pela invasão. Chutou um corpo que atrapalhava seu caminho e, com o arame farpado nas mãos, cercou a propriedade imaginando o que Marx teria a lhe dizer.
– Absolutamente nada — pronunciou uma voz feminina a três metros de distância sobre um monte de barro vermelho. Segurava uma fumegante piteira entre os dedos, acariciava uma amarelada edição do caderno Mais! E trajava um quase sensual uniforme de operária soviética. Dir-se-ia uma espiã que nas horas vagas debatia qualquer assunto por meio de metáforas.
Os olhos de Lima Costa se encantaram diante de tamanho fulgor. Que mulher peculiar, pensou. Não carregava lata d’água na cabeça, não exalava comida caseira, tinha as axilas bem cuidadas e certamente não se chamava Maria.
– Sou Marilena — disse, rompendo seus devaneios e caminhando em sua direção. — O que faz em minha propriedade? Não me recordo de ter solicitado uma cerca. De todo modo, é muita gentileza da sua parte.
Aquela mulher definitivamente não pertencia àquele lugar. Que linguajar apurado, que sofisticação nos gestos, que delicadeza no andar!
– Marilena? Sua propriedade? — fez Lima Costa incrédulo.
– Sim, minha propriedade. Você está bem?
– Estou, estou — atrapalhou-se. — É que não esperava encontrá-la aqui… quer dizer, não aqui aqui, mas aqui, entende?
– Não, não entendo — respondeu serena. — Acho melhor levá-lo ao posto médico. Você parece estar tendo um ataque epilético.
– Não! — gritou Lima Costa, causando espanto inclusive entre os catadores já embriagados. — São apenas alguns tremores que logo passam. Além do mais, os hospitais estão em greve, o que só pioraria meu estado. Preciso ir, boa sorte na sua invasão.
Saiu às pressas, esqueceu dois metros de arame farpado, e deixou a impressão de já ter sido visto em algum lugar. Não no noticiário policial, nas tragédias chuvosas, ou nas distribuições de sopões. Mas em algum lugar muito familiar. Um lugar com corredores estreitos, disputas internas e alguma pitada de alienação social.
Lima Costa chegou em seu barraco aterrorizado. Por pouco não fora descoberto. Por pouco não fora desmascarado. Por pouco não fora denunciado. Do Oiapoque ao Chuí, Marilena tinha que desembarcar logo ali? Fugiria. Era a atitude mais sensata a se tomar. Não sem antes desvendar os motivos subjacentes à presença de figura tão nobre naquele local. Afinal, o que a chefia do departamento de Ciência da Literatura planejava num terreno baldio?
– Construir um centro de estudos — respondeu Marilena repentinamente ao pé do seu ouvido causando-lhe calafrios. Penetrara por uma greta esquecida nos fundos do barraco e agora confirmava suas suspeitas. Estava ali o primeiro e único amor da sua vida universitária: seu professor da graduação. Uma paixão muito além dos platonismos imbecis de filmes tecnicolor. Uma paixão muito além de suspiros virginais. Mas, sim, uma paixão com direito a apalpadelas nas coxas e piscadelas safadas durante as aulas de formalismo russo. Lima Costa desconstruíra as certezas de Marilena e lhe antecipara décadas atrás isso a que hoje chamam de sexo pós-moderno. Por razões porém jamais esclarecidas, o professor desapareceu e sua vida foi destituída de qualquer sentido. Desolada, Marilena filiou-se a um grupo de apoio a alunas desiludidas, até que um dia conquistou o respeito da academia. Através de incentivos governamentais, desenvolvia atualmente um projeto de doutorado junto àquela comunidade.
– É de pressupostos historiográfico-literários que os favelados precisam! — ela arrematava diante de uma crédula e ensimesmada banca examinadora, que em seguida encaminhava a proposta para assinatura do ministro da cultura.
O reencontro com Lima Costa, entretanto, mudara as prioridades de Marilena.
– Estou condenado pelo passado — ele lamentou, enquanto a abraçava e abandonava qualquer rigor crítico que pudesse ter sobre tais palavras.
Não importava. Marilena estava disposta a reviver sensações intensas. Fugiriam juntos com o auxílio financeiro destinado ao projeto comunitário e viveriam de versos alexandrinos nos Champs-Elysées. Era uma ótima idéia. Extasiado, Lima Costa deu uma piscadela safada para Marilena e apalpou sua não tão jovem coxa. No casebre ao lado, uma mulher era espancada pelo marido viciado. Ao longe, um funk proibido soava como uma sinfonia de amor em tempos bárbaros.
Favelados certamente não precisavam de pressupostos historiográfico-literários. A humanidade afinal tinha mais o que fazer e, além do quê, sempre haveria Paris para gente como Lima Costa e Marilena.